Fraudes crescem no Brasil em meio a desafios de segurança, culturais e tecnológicos 📸 © Pete Linforth/Pixabay

O Brasil registrou uma tentativa de fraude a cada 2,2 segundos nos três primeiros meses de 2025, segundo dados recentes divulgados pela Serasa Experian. Mais do que um número alarmante, esse índice revela uma realidade preocupante: os golpes se enraizaram na rotina dos brasileiros, expondo vulnerabilidades significativas no sistema de segurança do País. De acordo com o site YouVerify, o Brasil ocupa hoje a 4ª posição no índice de fraudes no mundo, ficando atrás apenas de Índia, Estados Unidos e Reino Unido. Esse cenário evidencia não só a sofisticação e o alcance das organizações criminosas, mas também aponta para questões culturais que alimentam a proliferação desses crimes. Entender esses múltiplos fatores é essencial para traçar estratégias eficazes de prevenção e proteção. 

Segundo a pesquisadora e doutoranda em Antropologia Social, Fabiana Botton, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, fatores como desigualdade e informalidade levam muitas pessoas a buscar alternativas, às vezes ilícitas, para obter renda. “Muitos recorrem a golpes por enxergarem uma chance de lucro com baixo risco, já que a punição ainda é vista como rara e isso reforça a ideia de que vale a pena arriscar”, explica. “Há motivações como ambição, vaidade e desejo de ostentação em uma sociedade que valoriza o consumo e o sucesso, até mesmo obtido de forma ilícita. O golpe vira um atalho para um status que, de outra forma, seria inacessível”, conclui.

No Brasil existe uma construção cultural que valoriza a esperteza. A figura do malandro, por exemplo, é um arquétipo presente em diversas manifestações artísticas e é visto como alguém que, com astúcia, inteligência e lábia, consegue contornar as dificuldades, as regras e o sistema para se dar bem. Segundo Fabiana, o famoso “jeitinho brasileiro”, embora muitas vezes esteja associado à criatividade para resolver problemas, também pode ser uma porta para relativizar condutas ilícitas. “Essa romantização da malandragem pode acabar naturalizando certas práticas que, na realidade, são crimes. Além disso, contribui para a culpabilização da vítima, que pode ser vista como uma pessoa ingênua ou até mesmo pouco esperta.”

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A pesquisa de mestrado Roubamos sem dar um tiro, de Fabiana, idealiza que esses tipos de furto não carregam o mesmo peso associados a crimes com uso de violência física. Segundo ela, essa percepção é preocupante, pois contribui para a banalização do crime e subestima os impactos reais das fraudes, tanto financeiras quanto emocionais. “A ausência de um contato físico ou de armas tende a desmaterializar o crime. Ele se torna menos visível, menos palpável e por isso muitas vezes é visto como algo menos grave. O raciocínio é: se ninguém foi ferido, então talvez não tenha sido tão sério assim.”

Golpes virtuais mais sofisticados

No panorama criminal brasileiro, golpes virtuais ainda figuram entre as maiores ocorrências. Cada vez mais sofisticados, as modalidades mais comuns envolvem phishing (envio de mensagens falsas para capturar dados pessoais), clonagem de WhatsApp, golpes em compras e vendas on-line, além de fraudes em aplicativos financeiros. Essas práticas são facilitadas pela crescente digitalização da vida cotidiana, mas também pela falta de preparo de muitos usuários para identificar ameaças. 

Segundo a especialista, a alta digitalização da população, embora seja positiva, amplia as oportunidades para golpes. “A rápida expansão de serviços digitais, como o Pix e os bancos 100% on-line, embora eficientes, esses serviços aumentaram a exposição ao risco, especialmente entre usuários com baixa maturidade digital”, explica. “Outro fator é que, apesar da nossa legislação ter avançado, existe uma percepção de baixa punição, ou seja, o Brasil se tornou um terreno fértil para fraudes e um ambiente que, do ponto de vista do atacante, é bastante vantajoso”, completa. 

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Segundo o professor Alessandro Hirata, da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto (FDRP) da USP, a legislação brasileira sobre crimes digitais tem avançado com o Marco Civil da Internet, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e leis específicas como a Lei Carolina Dieckmann. Criada em 2012, após o vazamento de fotos íntimas da atriz que lhe dá nome, a lei Lei nº 12.737 tipificou como crime a invasão de dispositivos eletrônicos para obtenção, adulteração ou destruição de dados sem autorização, prevendo pena de detenção e multa. A medida foi um marco para coibir ataques a computadores, celulares e outros equipamentos, mas também revelou lacunas que, com a evolução da tecnologia e das práticas criminosas, precisam de constante revisão. Contudo, com as inovações tecnológicas e a atividade dos criminosos, é preciso sempre uma atualização e um acompanhamento de perto. “A punição é muitas vezes ineficaz por ser lenta e não atingir as pessoas que deveriam. Por isso, é necessário um trabalho constante de aumento de punições e de especialmente uma maior efetividade delas.”

Para Fabiana, o combate às fraudes digitais requer a combinação de tecnologia eficiente, educação da população e legislação ágil. Segundo ela, o ponto de partida é investir em educação digital, desde o ensino básico até campanhas de conscientização voltadas aos adultos. “Fortalecer o combate aos crimes digitais passa por capacitar os profissionais da segurança pública, oferecer conhecimento técnico, ferramentas adequadas e equipes especializadas para a investigação. Também é essencial aprimorar a integração entre instituições, bancos, operadoras de telefonia, plataformas digitais e o sistema judiciário, de modo a facilitar o rastreamento e o bloqueio das fraudes”, explica. “Por fim, o setor privado precisa continuar investindo em tecnologias de prevenção”, completa.

Por Hugo Carcci, Ferraz Junior e Gabriel Soares, do Jornal da USP

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