Historiador e escritor Luiz Antonio Simas conversa sobre nossas raízes coloniais, a força das culturas de resistência e os ataques do capital ao Carnaval
Historiador e escritor Luiz Antonio Simas conversa sobre nossas raízes coloniais, a força das culturas de resistência e os ataques do capital ao Carnaval 📸 © Arquivo Pessoal

Por Raquel Setz e Tabitha Ramalho, do Brasil de Fato – Eles se enrolam na bandeira verde e amarela, vestem a camisa da seleção e cantam o hino nacional a plenos pulmões. Mas odeiam samba, não assistem cinema brasileiro e sonham em morar em Miami. A ascensão da extrema direita no Brasil trouxe consigo um fenômeno peculiar: o “patriota” que despreza a brasilidade. O Carnaval, a maior festa popular do país, é alvo preferencial — todo ano surgem discursos condenando a promiscuidade e o gasto de dinheiro público com a folia, julgamento que não atinge, por exemplo, a Oktoberfest.

“Eu não diria que é uma contradição, eu diria que é um sintoma da complexidade que envolve o debate sobre a identidade nacional brasileira. O Brasil é fruto de um processo colonial extremamente violento, que se manifesta não apenas nos corpos, mas também nos contextos vinculados a sentidos de mundo, no campo simbólico, nas noções de pertencimento”, avalia o historiador e escritor Luiz Antonio Simas.

Ele explica que existe um Brasil que tentou construir sua identidade nacional apagando saberes não brancos. “Esse Brasil adotou durante muito tempo um recorte europeu como horizonte civilizatório e, num certo momento, passou a adotar um recorte norte-americano. É um sintoma desse tensionamento que marca o Brasil como problema: o que nós somos? O que queremos ser? De onde viemos? Para onde vamos?”

Simas chama atenção para um fenômeno mais recente: a presença da bandeira de Israel nessas manifestações. “A gente tem que lembrar que o processo colonial não se limita à exploração econômica. Ele também se manifesta no campo simbólico, no apagamento de modos de pensar, de modos de rezar, das manifestações culturais.”

“Quando você parte do pressuposto de que existem povos escolhidos, culturas superiores, uma vontade manifesta de uma divindade, isso é muito complicado. Você parte do princípio que está autorizado, em nome de um discurso de transcendência, a aniquilar o outro. A alteridade morre nesse processo”, alerta.

Culturas de resistência e de contra-ataque

Simas apresenta dois conceitos fundamentais para entender a resposta popular a esse projeto de aniquilação: as culturas de resistência e as culturas de contra-ataque. “Quando a gente pensa em resistência de forma muito estrita, resistir é reagir a uma pauta que é colocada pelo outro. Essas culturas vão além da resistência, propondo a reconstrução de sentidos coletivos de vida.”

Ele explica que são culturas profundamente comunitárias. “São culturas que se estabelecem a partir da reconstrução de modos solidários de estar no mundo. Ao contra-atacar uma pauta que é colocada pelo outro que quer te aniquilar, você vai além de uma simples reação – você constrói modos diferentes de vida.”

Sobre o Carnaval especificamente, Simas recorre a uma grande pensadora brasileira. “Dona Lélia Gonzalez, uma referência fundamental do pensamento brasileiro, tem um livro sobre as festas populares. Ela mostra como os africanos e seus descendentes, para reconstruir sentidos coletivos de vida aniquilados pela escravidão, se apropriaram do calendário europeu e reconstruíram seus sentidos de coletividade.”

O Carnaval, segundo ele, não é exatamente uma festa, mas uma data. “E essa data sugere a existência de uma pluralidade de festas. O Carnaval que chega com a colonização portuguesa vai sendo reinterpretado, ressignificado, apropriado numa dimensão criativa muito contundente, sobretudo pelos africanos e seus descendentes, que vão dando à festa novos sentidos.”

O historiador explica a diferença de cosmovisão entre as culturas africanas e o pensamento ocidental. “Para as concepções de mundo não brancas, a morte está mais vinculada ao esquecimento, à aniquilação da memória, do que propriamente ao fenômeno físico. Para que você se mantenha vivo, você depende fundamentalmente da coletividade, que vai recordar suas histórias, que vai falar sobre você.”

“Num mundo em que somos individualizados, em que nossos corpos são domesticados pela lógica do tempo linear do relógio medido pela produtividade, essas instâncias de reconstrução de sentidos coletivos de vida são transgressoras e muito poderosas”, critica.

Simas defende que o pensamento não branco é sofisticado e precisa ser valorizado. “Mesmo nós, do campo progressista, somos viciados em reflexões eurocentradas. Não que elas não sejam importantes, mas há percepções poderosas do mundo que são importantíssimas para construir vidas mais dignas.”

Simas identifica três frentes de ataque ao Carnaval. A primeira envolve o discurso de ordem pública e o direito à cidade — um debate que vem do século 19. A segunda é o imaginário que desqualifica o Carnaval como festa do pecado, fortalecido pelo avanço de designações evangélicas que operam na demonização do outro.

Mas a terceira, segundo ele, é a mais preocupante. “É a tentativa de cooptação do Carnaval pelo discurso de financeirização da vida. O mercado é sedutor, porque não desqualifica o Carnaval. Pelo contrário, o valoriza. Mas esse discurso vem com o objetivo de devorar a cultura popular a partir do interesse do capital.”

O historiador distingue “evento da cultura” de “cultura do evento”. “O evento da cultura é orgânico, resultado de uma organicidade. A cultura do evento é rasa, medida pelos impactos mais diretos do retorno financeiro. O mercado lê o Carnaval a partir da disciplina do dinheiro.”

Ele cita exemplos como blocos cooptados por grandes marcas e a restrição a determinadas marcas de cerveja. “Isso vai tirando do Carnaval de rua uma espontaneidade que ele marcadamente tem.”

Sobre a presença de figuras estranhas à tradição nas escolas de samba, como Virginia na Grande Rio, Simas lembra que a negociação sempre existiu. “As escolas de samba sobreviveram porque negociaram. Negociaram com o mercado, com a indústria do turismo, com a mídia, com o poder público, com a contravenção. E esse tensionamento sempre houve.”

Ao mesmo tempo, ele destaca a força das comunidades. “Você tem rainhas de bateria maravilhosas, negras e da comunidade, como Evelyn da Mangueira, Mayara do Paraíso do Tuiuti, uma tradição na Beija-Flor. Ao mesmo tempo que você tem uma Virginia, você tem a força das alas de baianas, dos componentes da bateria.”

A construção da identidade nacional

Simas faz uma crítica às políticas de identidade nacional, como as da Era Vargas. “Essas construções identitárias operaram na dimensão de que nossos dilemas teriam se resolvido no campo da cultura. Isso apaga a violência da nossa formação. A legitimação do samba não veio acompanhada da legitimação do sambista.”

Ele lembra que a República, proclamada pouco depois da abolição, pensou a identidade brasileira a partir da ideologia do branqueamento. “Na Era Vargas, isso muda, mas vem acompanhada de mitos cordiais vinculados à democracia racial. É evidente que o Brasil tem uma cultura mestiça – o problema é reconhecer que isso não é fruto de consensos, mas de violências.”

“Não acredito que a gente possa pensar na construção de futuro se a gente não construir passado. Não é apagando memórias coletivas que a gente vai resolver os dilemas brasileiros. Nós temos um vasto passado a ser construído para que a gente possa pensar num futuro mais generoso”, aponta.

Simas cita o movimento indígena e a juventude negra que entrou nas universidades. “Eles vêm construindo outras perspectivas, outras narrativas. Eu acredito nesse processo. Não sou um sujeito messiânico que acha que o fim inexorável da história é a solidariedade, mas eu acho que tem luta, é jogo. E esse processo está acontecendo, cotidianamente.”

|📸 © Fernando Frazão/ABr