O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, um dos expoentes dessa cultura do absurdo 📸 © RS/Fotos Públicas

Afirmações e ideias misóginas, autoritárias e violentas têm não só pautado o discurso da extrema direita, mas repercutido na mídia e nas redes. Declarações como fim do voto feminino, apologia às autocracias ou a defesa da execução pública para pena de morte são apresentadas em programas de televisão, podcasts ou nas redes sociais e defendidas por políticos e seus aliados. Assim, o BdF Entrevista desta quarta-feira (21) faz o questionamento: afinal, normalizamos o absurdo?

Para ajudar a entender esse cenário, a apresentadora Raquel Setz conversou com a pesquisadora Luiza Foltran, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). A conversa, claro, abordou uma das figuras mais emblemáticas desse cenário, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

“A primeira eleição de Trump [em 2016], em especial, conseguiu trazer grupos que não são coordenados, que têm inclusive, muitas vezes, ideias contraditórias entre si, mas têm essa marca de terem ideias muito radicais, de serem contra um ‘sistema’ comum e de terem uma cultura do politicamente incorreto. Essa campanha do primeiro mandato [de Trump] conseguiu dar protagonismo, dar voz”, contou.

“São ideias que sempre estiveram fora do mainstream, porque inclusive negam o sistema, negam tudo, mas ao terem essa voz dada pelo Trump, eles viraram notícia também da grande mídia, não teve como. Assim eles conseguiram de certa maneira o que eles queriam, que era espaço, que era voz”, complementou.

A especialista disse, ainda, que o primeiro mandato do presidente dos EUA foi caracterizado por muitas bravatas e poucas medidas efetivas. Este segundo mandato, porém, tem caráter diferente: o governo dos Estados Unidos, agora, tenta transformar essas ideias em diretrizes políticas e ações governamentais. O próprio plano de governo do então candidato contou com o chamado “Projeto 2025”, elaborado por grupos ultraconservadores.

“A informação através das redes sociais inaugurou uma nova era, que muitos especialistas estão chamando de ‘economia da atenção’. Trump e essa nova geração de lideranças da extrema direita, de lideranças neofascistas, aprendeu a lidar muito com esse tipo de comunicação”, avaliou. “É uma forma de pautar o debate e construir uma dinâmica de poder. Isso vira um assunto extremamente comentado e acaba entrando no imaginário como algo possível, algo aceitável”.

Segundo a pesquisadora, esse mecanismo é feito a partir de “testes” em cima de diferentes opiniões e discursos. Depois de qualquer grande acontecimento, é comum que figuras políticas alinhadas entre si deem declarações diferentes. Depois de um tempo, quando uma das posições se sobressai, os demais integrantes do grupo se enquadram e passam a replicar a ideia.

“Me parece que a dinâmica da extrema direita é menos dos seus fóruns unitários e mais do teste. A partir desse teste vão construindo seu desdobramento, inclusive, sobre mobilizações: para onde vão os rumos dos movimentos e das posições deles”, comentou.

Outro ponto comum desse tipo de estratégia política é a rejeição aos veículos de comunicação tradicionais. Líderes políticos se comunicam por redes sociais e veículos alinhados, e seus seguidores se isolam em bolhas. Entretanto, eles seguem pautando todas as manchetes.

“A gente viu isso na campanha do Bolsonaro: é uma dinâmica em que você se separa, se isola, mas, no fim das contas, você vira o principal assunto”, resumiu Luiza Foltran.

Por Felipe Mendes E Raquel Setz, do Brasil de Fato

|📸 © Molly Riley/The White House via Fotos Públicas