|🚭 Cigarros eletrônicos proibidos no Brasil ganham promoção na internet, aponta estudo da Fiocruz


Pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) alertam para o avanço de conteúdos desinformativos sobre cigarros eletrônicos no YouTube. Uma nota técnica produzida pelo Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz) identificou vídeos que questionam evidências científicas sobre os riscos da nicotina, desacreditam autoridades sanitárias e podem contribuir para a normalização do uso desses dispositivos.
Segundo o estudo, o formato adotado por parte dos canais é predominantemente opinativo, estratégia que, de acordo com os pesquisadores, pode ser utilizada para contornar as restrições existentes à publicidade de produtos de tabaco na internet brasileira.
A análise identificou cinco canais que, juntos, ultrapassam 6 milhões de visualizações e 400 mil inscritos. Os conteúdos aparecem entre as recomendações do YouTube em buscas relacionadas aos cigarros eletrônicos.
Além de discutir os dispositivos, alguns vídeos analisados apresentam avaliações de modelos, entrevistas com pessoas favoráveis ao produto e conteúdos que podem funcionar como promoção comercial.
Conteúdo comercial disfarçado de opinião
Um dos principais alertas da nota técnica é justamente a dificuldade de distinguir informação, opinião e publicidade no ambiente digital.
De acordo com os pesquisadores, conteúdos analisados apresentam elementos como cupons de desconto e links comerciais, além de informações sobre os produtos. Na avaliação da Fiocruz, esse modelo pode permitir que mensagens de promoção dos cigarros eletrônicos circulem sob a aparência de conteúdo espontâneo ou opinativo.
A situação ganha relevância porque a legislação brasileira restringe a publicidade de produtos derivados do tabaco, enquanto os cigarros eletrônicos permanecem proibidos no país pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Jovens estão entre os principais usuários
A preocupação também está relacionada à exposição de adolescentes e jovens a esse tipo de conteúdo.
Segundo os dados apresentados na nota técnica, pessoas entre 15 e 24 anos representam cerca de 70% dos usuários de dispositivos eletrônicos para fumar no Brasil.
Os pesquisadores avaliam que a circulação de conteúdos que minimizam os riscos da nicotina ou apresentam os cigarros eletrônicos como produtos desejáveis pode dificultar ações de prevenção e favorecer a iniciação ao consumo.
Fiocruz aponta fragilidade na autorregulação
A nota técnica também critica o que considera uma autorregulação insuficiente do YouTube diante das normas brasileiras relacionadas ao tabaco e à proteção de crianças e adolescentes.
Segundo o estudo, a plataforma não apresenta, em sua seção de publicidade, referência clara à proibição brasileira de propaganda de tabaco e cigarros eletrônicos. A sinalização de conteúdos restritos a maiores de 18 anos também teria sido aplicada apenas de maneira esporádica nos materiais analisados.
Para os pesquisadores, é necessário ampliar a transparência sobre os mecanismos utilizados pelas plataformas para moderação, recomendação e monetização de conteúdos relacionados ao tabaco.
Impacto do tabagismo preocupa pesquisadores
A discussão ocorre em um cenário de preocupação com a evolução do consumo de produtos relacionados ao tabaco.
A nota aponta que, entre 2023 e 2024, a proporção de adultos fumantes no Brasil teria passado de 9,3% para 11,6%.
Os pesquisadores também destacam o impacto econômico das doenças relacionadas ao tabagismo. Segundo os dados apresentados no documento, o enfrentamento dessas enfermidades representa um custo anual estimado em R$ 153 bilhões para o Sistema Único de Saúde (SUS).
A Fiocruz ressalta ainda que os cigarros eletrônicos contêm nicotina, substância capaz de provocar dependência, e estão associados a problemas de saúde, incluindo a EVALI, uma condição relacionada ao uso de determinados dispositivos eletrônicos para fumar que pode provocar lesões pulmonares.
O que a Fiocruz recomenda
Entre as propostas apresentadas na nota técnica está a criação de um acordo de cooperação com o YouTube para fortalecer o cumprimento das regras brasileiras que restringem a publicidade de tabaco.
O estudo também recomenda uma articulação entre órgãos de comunicação pública, influenciadores digitais e a própria plataforma para ampliar, de forma gratuita, a divulgação de informações sobre os riscos associados aos cigarros eletrônicos.
Outra recomendação é que as plataformas digitais ampliem a transparência sobre seus mecanismos de avaliação de riscos, moderação, recomendação e monetização de conteúdos relacionados ao tabaco.
Segundo os pesquisadores, essas medidas são especialmente importantes diante das regras de proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital, com o objetivo de reduzir a exposição desse público a conteúdos que possam estimular a iniciação ao uso de produtos de nicotina.
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