Manifestantes se reunem em protesto pelo fim da jornada de trabalho 6 x 1, no RJ 📸 © Tânia Rêgo/Agência Brasil

A redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 não paralisariam a economia brasileira, o contrário: poderiam gerar milhões de empregos, aumentar a produtividade e melhorar a saúde da população. A avaliação é da professora e pesquisadora Marilane Teixeira, do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), uma das autoras do estudo que analisa os efeitos do regime 4×3, proposta em debate no Congresso.

Segundo Teixeira, o estudo surge como resposta às análises que previam queda de 7% no Produto Interno Bruto (PIB) caso a jornada fosse reduzida de 44 para 36 horas semanais. “É um cálculo simplista, mas que é absolutamente maquiavélico”, afirma, em entrevista ao Brasil de Fato.

“A economia não vai paralisar porque nós estamos falando de horários, escalas de trabalho. Se você tem uma jornada 4×3, você trabalha quatro dias e vai folgar três dias, e outra pessoa certamente vai trabalhar durante esses dias”, explica.

Utilizando os mesmos parâmetros dos economistas que projetaram perdas, o grupo mostra que “se a jornada de trabalho for reduzida para 36 horas, teríamos pelo menos um ganho de produtividade em torno de 4,5%”. Para setores como comércio e serviços, diz ela, a mudança também poderia criar entre 4 e 4,5 milhões de novos postos de trabalho.

Disputa política

A pesquisadora destaca que experiências na Europa e casos pontuais no Brasil apontam que “não há perda de produtividade nem de competitividade” com a redução da jornada. Para ela, o entrave principal é, na verdade, político. “Os empresários não querem repartir esses ganhos de produtividade com a sociedade” nem com os trabalhadores, analisa. “O tema é menos econômico e muito mais um debate político”, diz.

Teixeira ressalta que a proposta cresce porque ela atinge especialmente jovens sobrecarregados por rotinas que impedem uma vida social, estudo e descanso. “As pessoas querem viver mais. Não podemos admitir continuar vivendo exclusivamente para o trabalho”, declara.

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Desigualdade de gênero

A pesquisadora indica que a mudança também traria efeitos positivos em relação à desigualdade de gênero. “As mulheres têm uma jornada que varia entre 22 e 23 horas por semana em trabalho não remunerado”, aponta. Somado ao trabalho pago, ela pontua que isso gera uma diferença média de três horas a mais em relação aos homens.

Para Teixeira, a redução da jornada remunerada não deve significar mais trabalho doméstico para as mulheres. “Não é para absorver essas horas livres com o trabalho não pago”, esclarece. Ela defende, inclusive, que seja uma oportunidade para que “os homens contribuam para a melhor distribuição do trabalho doméstico e de cuidado”.

Além disso, ela ressalta que mulheres são maioria em setores onde o 6×1 é predominante, como comércios, shopping centers e setores de telemarketing.

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Adoecimento no trabalho

A cientista alerta ainda para a crise de saúde mental relacionada ao trabalho. “Nós tivemos em torno de 500 mil afastamentos motivados por doenças psicossociais” em 2024, afirma. Ela associa o fenômeno ao ambiente de metas, pressão e assédio que marcam o modelo produtivo atual. “As pessoas estão se afastando justamente porque não conseguem lidar com a pressão do trabalho cotidiano”, avalia.

Teixeira vê a luta pelo fim da escala 6×1 como uma expressão dessa insatisfação, sobretudo entre a população mais jovem. “É a forma como esses jovens expressam a sua indignação e a sua insatisfação com as condições de trabalho existentes”, analisa.

Benefício coletivo

A pesquisadora reforça que a pauta deve ser de interesse geral, não apenas dos trabalhadores submetidos ao 6×1. A mudança, defende, pode dinamizar a economia pela via do consumo e da geração de empregos. “Quem não quer viver numa sociedade mais saudável?”, provoca.

“A atividade econômica vai ser impulsionada, porque as pessoas vão ter mais tempo livre para poder gastar com lazer, entretenimento, educação, viagens, e isso também ajuda a gerar novos postos de trabalho”, explica. “Todo mundo se beneficia”, conclui.

Por Adele Robichez & Larissa Bohrer Brasil de Fato

|📸 © Tânia Rêgo/Agência Brasil