Facções e milícias alcançam a vizinhança de ao menos 28 milhões de brasileiros 📸 © Marcos Santos/USP Imagens

Recente levantamento do Datafolha aponta que facções e milícias alcançam a vizinhança de pelo menos 28,5 milhões de brasileiros, ao mesmo tempo em que um maior número de pessoas relata que a presença do crime organizado no próprio bairro aumentou. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública revela que esse crescimento indica uma maior captura de territórios e mercados pelos grupos criminosos. Além disso, sua presença foi relatada com mais frequência em grandes cidades (com mais de 500 mil habitantes), nas capitais e na região Nordeste. Quem afirma ter sofrido com a presença do crime organizado no local onde mora conta ter conhecimento sobre cemitérios clandestinos e ter encontrado grandes grupos de usuários de drogas, ou Cracolândias, nos trajetos diários até o trabalho ou a escola.

Bruno Paes Manso, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP, jornalista e autor de A Guerra: A Ascensão do PCC e de O Mundo do Crime no Brasil, comenta da operação ocorrida ontem (28) contra o Comando Vermelho, no Rio de Janeiro. “É uma operação que entrou para a história com tudo que ela implicou, centenas de mortes, corpos sendo expostos em praça pública, uma violência generalizada. É uma situação muito dramática e que evidencia uma perda de controle político completo no Rio de Janeiro, ao mesmo tempo que mostra a sofisticação de armamentos do crime organizado.”

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Estratégias para combater o crime organizado

De acordo com Paes Manso, o primeiro passo para realizar o combate ao crime organizado com maior eficiência é a eleição de políticos comprometidos com a democracia e suas instituições. “O discurso de guerra e violência de políticos passa para as pessoas a impressão de que algo está sendo feito, que eles estão combatendo o crime. E, na verdade, é para que tudo continue como está. Em 2022, às vésperas da eleição de Cláudio Castro, foram feitas três operações letais no Rio de Janeiro, e ele acabou sendo eleito no primeiro turno, como se isso resolvesse a situação criminal, sendo que isso mantém a situação e a ligação da polícia com a criminalidade.”

Após isso, existe todo um desafio institucional a ser feito, no qual é necessário uma integração dos governos estaduais para o combate às facções, visto que elas se nacionalizaram, ampliando sua presença para quase todos os estados da União. “É notável que a segurança pública vive em ilhas estaduais, é como se cada um tivesse que resolver o problema do seu próprio Estado. É essencial ter uma coordenação para trabalhar de forma inteligente, Estados e a União participando desse processo, compartilhando informações, Ministérios públicos, polícias civis e militares, guardas etc.”

“A segurança pública sempre foi considerada um ônus para o Estado brasileiro, como se fosse só mais um problema jogado nas costas dos políticos. A criação da nova PEC, que cria fundos para financiar a segurança do Estado, e uma agência que pensa de forma estratégica, compartilhada com as outras instituições estaduais, é também um passo importante nessa batalha.”

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A ampliação dos negócios criminais

O crescimento e ampliação do poderio dos grupos criminosos, como PCC e o Comando Vermelho, não é por acaso, eles conseguiram, através desse crescimento, capturar novos territórios e expandir suas áreas de atuação. Atualmente esses grupos trabalham com muitos outros empreendimentos do que apenas tráfico de drogas, afetando profundamente o dia a dia da população brasileira, que relata, muitas vezes, ter conhecimento de cemitérios clandestinos, Cracolândias, grupos de usuários e trajetos desses grupos.

“O PCC é muito focado nos portos, aeroportos, estradas para transportar seus produtos para os mercados internacionais e também distribuindo nos Estados, mas fundamentalmente pensando nesse mercado atacadista, lavando muito dinheiro, entrando em outros negócios e na política. E o Comando Vermelho, por outro lado, com essa estratégia de controle territorial nas cidades, não só para a venda varejista de drogas, mas também para venda de gás, de cigarro clandestino, apropriação de terrenos, construção de imóveis. A partir do momento que eles exercem o controle armado do território, começam a extrair receita desse território que controlam. São dois modelos de negócios diferentes, mas ambos prejudicam absurdamente a população”, finaliza o pesquisador.

Por Jornal da USP

|📸 © Ascom PMPA