Calor de 45°C em favela é alerta para justiça social, adverte arquiteto 📸 © Tânia Rêgo/ABr

Um estudo com imagens de satélite mostra que a desigualdade social em São Paulo também se reflete na temperatura. No verão de 2024 e 2025, Paraisópolis, na zona sul, registrou até 45°C na temperatura de superfície. Enquanto isso, o Morumbi, bairro vizinho, ficou na casa dos 30°C — uma diferença de até 15 graus.

“As nossas cidades em geral, desde as grandes, médias e agora as pequenas, estão sofrendo dessa doença da segregação. Estão sendo afetadas cada vez mais por bairros onde os ricos se protegem e bairros onde os pobres são deixados na chuva, no sereno, no abandono e no calor agora”, explica o arquiteto e urbanista Marcelo Ferraz ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.

O levantamento foi feito por Cefavela, Centro de Estudos da Favela, em parceria com pesquisadores da Universidade Federal do ABC, a UFABC. Foram analisadas imagens térmicas de satélite registradas em dezembro e fevereiro, período marcado por onda de calor na capital.

As imagens mediram a temperatura de telhados, ruas e solos, que costuma ser muito mais alta do que a do ar. Segundo os pesquisadores, valores acima de 40°C já representam risco grave à saúde. A Organização Mundial da Saúde alerta que o calor extremo aumenta o risco de desidratação, insolação e agravamento de doenças crônicas. Em favelas, a falta de áreas verdes, a alta densidade de construções e o uso de materiais que retém calor agravam esse problema.

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Diante desse cenário, o especialista defende que a cidade precisa ser repensada e reformada. “É preciso que a gente tenha, assim como temos os parques nas zonas mais nobres, zonas arborizadas, terrenos drenantes, onde a chuva pode penetrar no solo”, acrescenta.

Dados do IBGE mostram que mais de 1,7 milhões de paulistanos vivem em favelas, onde o calor extremo se torna mais uma face da desigualdade urbana. Ferraz afirma que o calor não é só uma questão climática, mas é uma questão também de justiça social e também de saúde pública.

“Então, é fundamental que a gente comece a repensar essa cidade que criamos. Como ponto central da convivência humana, ela precisa promover o conforto das pessoas”, destaca.

Para Ferraz, o poder público precisa olhar para essas áreas — em geral periféricas — e transformá-las em verdadeiras cidades. “Ou seja, tem que ter praças, árvores, espaços de encontro, escolas, postos de saúde, hospitais. Temos que transformar as zonas periféricas das grandes cidades em cidades para valer. Então é fundamental que isso aconteça. E o poder público é responsável por isso”, acrescenta.

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Outra coisa apontada pelo arquiteto é que a verticalização não é um problema em si, uma vez que pode ser necessária para ganhar mais espaço no solo para a convivência.

“No entanto, uma verticalização tem que “respirar”. É preciso criar espaço, com prédios bem espaçados. O problema é o adensamento excessivo, que não é bom em qualquer altura. Esse adensamento, mesmo que horizontal como se vê na periferia de São Paulo, impede a circulação de ar e se torna um problema”, avalia.

Em relação ao Plano Diretor de São Paulo, para promover a reorganização, o urbanista explica que o problema desses projetos é a falta de acompanhamento e de aplicação constante de suas diretrizes. “É preciso que a cidade tenha na sua trama geral uma distribuição democrática da riqueza”, aponta.

Por Ana Rosa Carrara E Tabitha Ramalho, do Brasil de Fato

|📸 © Tânia Rêgo/Agência Brasil