Propaganda de ultraprocessados repete tática do cigarro ao usar estereótipos machistas
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As propagandas televisivas de alimentos ultraprocessados reproduzem estereótipos machistas que contribuem para o aumento do consumo desses produtos, que causam doenças como câncer e diabetes. É o que conclui a pesquisa de mestrado de Adélcia Almeida, realizada no departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP. Segundo a pesquisadora, as “grandes indústrias de alimentos ocupam espaços, muitas vezes, que acabam privilegiando eles, com várias táticas que usam para barrar qualquer política pública que possa defender a saúde da população”.

As mulheres ainda são responsáveis pela maior parte dos cuidados com a casa e com a alimentação familiar no Brasil. De acordo com o IBGE de 2022, elas dedicam 9,6 horas por semana a mais do que os homens para afazeres domésticos. Por isso, Adélcia afirma que direcionar propagandas de produtos ultraprocessados para o gênero feminino é uma estratégia para que esse tipo de comida entre no cotidiano familiar, o que aumenta ainda mais o consumo.

Ana Paula Bortoletto Martins, orientadora do mestrado de Adélcia, afirma que a pesquisa é inovadora, pois relaciona a área da saúde com questões de gênero e publicidade. “São poucos [os estudos] que têm essa abordagem e que olham especificamente para a questão de gênero, relacionando com as questões de alimentação saudável”, disse a professora do departamento de nutrição da FSP. Ana Paula também é coordenadora da Informas Brasil, uma rede com pesquisadores e organizações de 56 países que visa aumentar o consumo de alimentos saudáveis.

O lugar da mulher na propaganda

A hipótese de que a propaganda de ultraprocessados poderia estar relacionada com questões de gênero veio de um banco de dados da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que utilizou o protocolo da Informas para fazer coletas de dados sobre estratégias de marketing e grupos vulneráveis. Usando esse mesmo protocolo, Adélcia e uma equipe de pesquisadoras treinadas selecionaram 122 anúncios que foram transmitidos em maio de 2019 e em junho de 2020 pelas três maiores emissoras de televisão aberta nacionais: Globo, Record e SBT.

Os dados descobertos foram que, das publicidades onde havia uma personagem principal (23,8%), havia mais protagonistas mulheres (13,1%) do que homens (10,7%). Os outros anúncios não tinham personagem principal, ou seu gênero não era identificável. Entretanto, a maior parte dos narradores eram do gênero masculino (67,6%). A pesquisadora diz que o resultado pode estar relacionado com a autoridade e a credibilidade atribuídas à voz masculina pela sociedade, estereótipo que é reproduzido pelos anúncios.

Outro destaque dos resultados é o papel que é dado à mulher nas propagandas. “Tinham mulheres famosas e mulheres comuns, mas sempre era uma mulher dentro de casa, em ambientes domésticos, ou cuidando da criança, colocando comida na mesa para a família toda. O homem aparecia na rua, mas a mulher sempre, sempre estava dentro de casa”, diz Adélcia. 

Um desses anúncios foi o da marca de chocolates LaNut, em que o ator Thiago Lacerda está andando na rua, comendo um chocolate, e as mulheres aparecem dentro de casa, espiando-o pelas janelas.

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Os ultraprocessados são o novo cigarro?

Adélcia relata que o uso de estereótipos femininos em anúncios de produtos que fazem mal à saúde não é novidade. As indústrias de álcool e tabaco já utilizavam estratégias para chamar o público feminino, que são as mesmas usadas para comidas ultraprocessadas.

“Eles pegam essas características desejáveis pelo público feminino e colocam na publicidade, para que as mulheres, ao verem certos anúncios, se identifiquem e falem, ‘realmente, esse produto vai satisfazer minhas necessidades’”, explica a nutricionista. Nos anúncios de cigarros, se destacava o empoderamento feminino. Agora, a questão está mais relacionada ao tempo – ou à falta dele.

Tanto para fazer, tão pouco tempo

A questão do aumento do consumo de alimentos ultraprocessados não está ligada apenas à propaganda, mas também aos desafios que a mulher enfrenta na sociedade atual, segundo Adélcia. Um exemplo é a dupla jornada de trabalho, em que é preciso conciliar o emprego com os cuidados da casa e dos familiares. Um levantamento da plataforma de empregos Infojobs, divulgado em 2024, revelou que 8 em cada 10 adultas brasileiras estão condicionadas a uma dupla jornada de trabalho.

“Não vale culpabilizar, porque se ela [a mulher] está cansada e aí chega em casa, o marido ou os filhos não ajudam, você vai e apresenta um anúncio que tem uma embalagem de produto já pronto só para esquentar no micro-ondas, é lógico que a mulher vai sentir que se adquirir aquele produto, vai agilizar o trabalho”, explica a pesquisadora. 

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O que a nutricionista critica não é o comportamento dos consumidores, mas sim os apelos persuasivos que a publicidade de ultraprocessados usa, considerando o fato de que esse tipo de alimento é prejudicial à saúde. Para dar maior credibilidade aos produtos, as empresas também costumam colocar famosos nos anúncios, misturando estratégias de persuasão, como no vídeo abaixo. Nos comentários, uma mulher diz “Orgulho e confiança!”.

Muito processados e muito perigosos

O Ministério da Saúde, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e outros órgãos da saúde consideram o consumo de ultraprocessados como um dos fatores responsáveis por causar as Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT). As DCNT são doenças irreversíveis, que limitam as capacidades dos pacientes e demandam um longo período de tratamento para amenizar os sintomas. Algumas delas são os cânceres, diabetes e doenças respiratórias e cardiovasculares crônicas.

As DCNT estão entre as 10 maiores causas de morte no mundo, segundo a OMS. Dados da Fiocruz apontam que em 2019, uma pessoa morreu prematuramente por consequências do consumo de ultraprocessados  no Brasil a cada 6 horas. Esses alimentos são perigosos pois possuem altos valores de sódio, gorduras e substâncias sintéticas, poucos nutrientes e uma quantidade mínima de ingredientes naturais. Algumas bebidas lácteas, doces e molhos são ultraprocessados.

Para reduzir o consumo desses alimentos e suas consequências, Ana Paula Martins afirma que as organizações internacionais de saúde recomendam que os países imponham limites à publicidade de ultraprocessados. “Aqui no Brasil a gente ainda não tem nenhuma política específica mais geral sobre isso, mas a intenção é que esse estudo contribua para mostrar o tamanho do problema e, a partir disso, as soluções em relação à restrição da publicidade de alimentos no Brasil aumentem e sejam levadas à frente”, diz a especialista.

Por Isabela Nahas, com Silvana Salles e Moisés Dorado, do Jornal da USP

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