Estreou nos cinemas brasileiros o filme Salve Rosa, novo trabalho da diretora Susanna Lira, que aborda a exploração de crianças nas redes sociais. A obra acompanha a trajetória de Rosa, interpretada pela atriz Klara Castanho, uma influenciadora mirim de 13 anos cuja vida virtual contrasta com a realidade de abusos e pressões vividas ao lado da mãe, papel da atriz Karine Teles.

Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, Lira explicou que o longa nasceu da constatação de um vácuo de proteção às crianças no ambiente digital. “Hoje em dia, quando vamos trabalhar com uma criança no audiovisual, existe um conjunto de regras, avaliações psicológicas e até a exigência de que 80% do salário vá para uma poupança. Mas quando isso vai para as redes sociais, é uma coisa totalmente sem limites”, observou.

A diretora alertou que, nas plataformas digitais, não há qualquer controle sobre a carga de trabalho, a renda e o impacto psicológico das crianças. “Uma criança pode trabalhar 24 horas por dia, se os pais assim decidirem. É uma forma de adultização que não é sexualizando o corpo, mas trazendo para ela uma responsabilidade que não é propícia para aquela idade”, indicou.

__________________________________________________________________________________________________________________________________________

|👉 LEIA TAMBÉM:

____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

Segundo Lira, a monetização elevada das redes transforma o fenômeno em algo ainda mais grave. “A família toda acaba saindo dos seus trabalhos e essa criança vira bem cedo o arrimo da família porque a renda toda passa a ser dela. É uma exploração disfarçada de sucesso”, criticou.

Para a cineasta, o debate sobre regulação das big techs é inseparável da pauta do trabalho infantil digital. “Algumas pessoas acham que, quando pedimos essa regulação, estamos falando de censura, mas estamos falando de regulamentar o que acontece ali dentro. Virou uma missão para mim falar sobre o trabalho infantil”, disse.

Lira também destacou a importância de um olhar crítico sobre o consumo de conteúdo infantil na internet. “Antes de fazer o filme, eu gostava muito de ver crianças e bichos na internet. Aí percebi que eu estava dando audiência para algo que eu não sabia o que tinha por trás. Quando vemos uma criança com milhões de seguidores, tem uma rede alimentando financeiramente aquele movimento. É preciso pensar o que a gente consome”, contou.

Premiada no Festival do Rio, Klara Castanho interpreta a jovem Rosa, que administra o canal Brincando com Rosa. “Karine e Klara estão brilhantes. A relação das duas vai mudando conforme os contratos e o dinheiro chegam, até que a Rosa descobre um segredo que tem a ver com a ganância e o desejo de manter essa infância dentro da internet”, adiantou Lira, sem entregar spoilers.

Por fim, a diretora fez um convite ao público. “Salve Rosa está em cartaz em várias cidades. Quanto mais as pessoas forem ao cinema ver, mais tempo o filme fica. É um manifesto político manter um filme com essa discussão em cartaz. O cinema pode ser um instrumento de luta e reflexão sobre pautas urgentes”, defendeu.

Por Adele Robichez, Gabriela Carvalho e Lucas Krupacz, do Brasil de Fato

|📸 © Reprodução/Youtube/ingresso.com