|🚻🏳️⚧️ Transfobia nos banheiros públicos é associada a distúrbios urinários em pessoas trans

Alguns distúrbios do trato urinário inferior estão diretamente relacionados a episódios de transfobia em banheiros públicos, como mostra um estudo realizado na Escola de Enfermagem (EE) da USP. Em pesquisa que envolveu 131 pessoas trans, a graduanda em enfermagem Brunna Ciarcia dos Santos Arnandes, sob a supervisão da professora Gisela Maria Assis, desenvolveu seu estudo intitulado Transfobia no Uso de Banheiros Públicos e sua Associação com as Disfunções de Trato Urinário Inferior, Estudo Transversal.
De acordo com a professora Gisela, trata-se de um estudo inédito. “Fizemos uma grande busca na literatura e não encontramos pesquisas semelhantes”, afirma a docente. A pesquisa é resultado do trabalho de conclusão de curso (TCC) de Brunna e integra o projeto de pesquisa Atuação do enfermeiro nas disfunções do assoalho pélvico, que é coordenado pela professora Gisela na EE-USP. “Além de Brunna, vale destacar a participação de outras duas estudantes da Escola de Enfermagem: Letícia Delvaz e Beatriz Mariano”, ressalta a docente.
Em entrevista ao Jornal da USP, Brunna destaca que a pesquisa buscou avaliar a transfobia no uso de banheiros públicos e, por conta disso, as consequentes disfunções urinárias na população trans. “A ideia é compreender o comportamento sanitário, que é como a pessoa se relaciona com o banheiro”, descreve a estudante. “Normalmente, quando sentimos vontade de ir ao banheiro escolhemos o local, a melhor posição e urinamos. Em seguida, a bexiga volta a encher”, explica Brunna. Porém, como ela ressalta, existem alguns comportamentos prejudiciais, tanto para a bexiga, quanto para o assoalho pélvico, que são os músculos que sustentam a região. “E isso pode impactar negativamente, podendo ser causa de tensão pélvica, infecção urinária, constipação, disfunção sexual”, diz.
Nosso objetivo com o estudo foi entender se, nas pessoas trans, a adoção de comportamentos sanitários inadequados é maior por elas terem dificuldade de acessar os banheiros públicos. Para o estudo, as pesquisadoras desenvolveram um formulário pelo Google Forms, de forma virtual, com dois tipos de perguntas. As perguntas objetivas, que são de instrumentos validados que avaliam comportamentos sanitários e as disfunções, e uma pergunta aberta para que as pessoas pudessem descrever a experiência que elas tiveram ao usar o banheiro público. Os links com as questões foram enviados a líderes de coletivos e instituições trans, e também pelo método bola de neve, em que uma pessoa que responde a pesquisa envia para outra, e para outra. “Isso nos permitiu chegar a uma amostra de 131 pessoas”, contabiliza Brunna. A pesquisa foi realizada de outubro de 2024 a março de 2025.
Resultados “alarmantes”
Como destaca a professora Gisela, os principais resultados em relação ao comportamento sanitário traz dados que as pesquisadoras consideram alarmantes. Entre os 131 pesquisados, 87% responderam que adiam a vontade de ir ao banheiro. “Mesmo que elas sintam vontade naquele momento, elas só vão depois”, conta a professora. Em contrapartida, 70% chegam a urinar de forma apressada e forçada. “Apressar o tempo pode estar relacionado com a vontade de sair daquele local. Como mostra a pesquisa, 93% sentiram constrangimento, 89%, insegurança, e 47% das pessoas trans já sofreram transfobia utilizando o banheiro público”, informa a docente.
Gisela ressalta que esses dados foram associados estatisticamente com disfunções como a bexiga hiperativa, que é aquela vontade de sair correndo para ir para o banheiro, a retenção urinária, que é uma das principais causas de infecção urinária, e também à incontinência urinária.
De acordo com as pesquisadoras, há dois motivos principais que levam as pessoas trans a deixarem de usar o banheiro. O motivo estrutural, por exemplo, de só ter micção em banheiro masculino, e o medo de julgamento, de transfobia e de agressão.
Gisela informa ainda que as pessoas envolvidas na pesquisa são de maioria branca, e com nível de graduação superior ou de pós. “Foi uma amostra de predominância de pessoas da classe média”, conta a docente. Ela acredita que o público pesquisado tem essas características em virtude da forma de divulgação da pesquisa, que foi por meio de redes sociais. “Estudos apontam que a maioria da população trans possue baixa escolaridade, é predominantemente preta e parda e com baixa renda”, informa Gisela.
Sucesso no exterior
O estudo de Brunna foi apresentado, com sucesso, em junho de 2025 em um congresso nos Estados Unidos, no WOCNext. O evento é anualmente organizado pela Wound, Ostomy, and Continence Nurses Society (WOCN®), que educa e inspira profissionais de saúde do mundo todo sobre o que há de novo, o que é necessário e o que vem por aí em cuidados de pessoas com feridas, estomias e incontinências.

Na apresentação do trabalho realizada em Abu Dhabi, slides que retratam os percentuais de pessoas que se sentem inseguras, que se sentem constrangidas e as que adotam o comportamento prejudicial de adiar ou forçar a micção (slide do meio). A apresentação também traz o percentual de bexiga hiperativa, retenção urinária e incontinência urinária em pessoas transmasculinas e transfemininas (último slide) – Foto: Arquivo pessoal da pesquisadora
“Enviamos um resumo do trabalho sem grande expectativa de aceite, porque ainda era um estudo preliminar, ainda estávamos coletando dados. Para nossa surpresa, ele foi selecionado entre todos os trabalhos enviados para o congresso, e foi um dos cinco selecionados como casos a serem discutidos e evidenciados mundialmente”, comemora a docente.
Posteriormente, no mês de setembro, o trabalho também ganhou destaque no ICS-EUS 2025, congresso da Sociedade Internacional de Continência e da Sociedade Urológica dos Emirados, em Abu Dhabi, capital do país.
Por Antonio Carlos Quinto, do Jornal da USP
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