|📺👶👧🏿 Incentivos e plataformas digitais estimulam produções de animação infantil brasileiras
Irmão do Jorel, Show da Luna, Galinha Pintadinha, Peixonauta, Oswaldo e Mundo Bita são alguns exemplos de animações famosas produzidas por estúdios brasileiros. No passado, os canais de televisão exibiam majoritariamente desenhos norte-americanos e japoneses. Hoje, as animações brasileiras assumiram uma posição relevante, com destaque no mercado, fãs, audiência e prêmios.
O espraiamento dos avanços tecnológicos, iniciativas como o Fundo Setorial do Audiovisual, a Lei do Cabo de 2011 e até mesmo a pandemia de covid-19, impactaram diretamente as produções e produtoras brasileiras. Hoje os novos circuitos de produção e consumo— com fatores como a necessidade de plataformas de streaming por diversificação de catálogo e o fortalecimento do mercado brasileiro de animação no cenário internacional— têm sido responsáveis por um maior espraiamento e consumo da produção realizada no Brasil.
A animação na TV
No passado, o principal meio de consumo das animações infantis era a TV aberta, com a compra de direitos de exibição de animações estrangeiras, como Pica-Pau, He-man, Jetsons, Scooby-doo, Dragon Ball etc. Sobre o assunto, o professor Marciel Consani da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP explica: “Nos anos 70, 80 e 90 os estudos de recepção, os estudos de produção se baseavam numa maneira de a gente consumir audiovisual que basicamente tinha como meio principal no Brasil a televisão, secundada pelo cinema. Nesse contexto, tirando Maurício de Sousa, era relativamente raro você ver produções de animação brasileiras. Tinha a fase pré-histórica, que eu fui criança, assistia anime, assistia desenhos da Disney. Havia programas infantis, programas matinais, eventualmente com reprise na parte da tarde, ou seja, havia espaço na grade da TV aberta para desenhos”.
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Ao longo dos anos diferentes desenhos, com diferentes propostas, cruzaram a televisão aberta. Segundo o professor, a preocupação sobre violência nas animações e com desenhos “deseducativos” sempre foi presente. Consani cita programações com uma curadoria diferente e com um aspecto mais educativo, como a da TV Cultura, mas alega que, com a chegada da TV a cabo, prevaleceram programas mais voltados ao entretenimento.
Sobre a redução da programação infantil na TV aberta, um consenso falso em relação a esse processo é que foi decorrente da proibição da publicidade voltada ao público infantil. Segundo o professor, o processo se relaciona mais com a mudança no modelo comercial das emissoras. Sobre o tópico, Consani completa: “A TV aberta teve que concorrer, primeiramente, com a TV a cabo, que era muito cara, portanto, ela acabou vencendo essa concorrência. Hoje em dia, ela enfrenta o acesso às mídias pelo celular. Agora, realmente, a TV aberta está com problemas, porque ninguém quer sentar para ver televisão. As crianças, inclusive, você vê que elas estão principalmente vendo o que elas gostam na tela do celular. O modelo, inicialmente, teve uma motivação econômica para se transformar; hoje em dia, a própria transformação gerou um novo hábito de consumo”. Inclusive, o fim da exibição semanal da TV Globinho ocorreu em 2012, dois anos antes da proibição da publicidade infantil, em 2014. O programa, que desde então era exibido somente aos sábados, foi definitivamente descontinuado em 2015.
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Incentivos, pandemia e streaming
Como aponta o artigo Confinados e antenados: novos circuitos do desenho animado infantil brasileiro após a pandemia de covid-19, as produções de animações brasileiras vêm passando por um processo de espraiamento multifatorial. Incentivos governamentais na produção de animações e contratos com distribuidoras e produtoras nacionais são vitais nesse processo. “As leis de incentivo do audiovisual sempre têm um porcentual que acaba incidindo sobre a produção de animação que, normalmente, é a animação voltada para o público infantojuvenil. Como está pontuado, inclusive, em vários artigos, houve um ‘gap’ durante os anos do governo anterior, em que o investimento na cultura foi minimizado ou redirecionado para outros fins. Agora que a gente voltou, mais ou menos, a um cenário de normalidade em relação à cultura. Então pequenos produtores têm chance de mostrar os seus trabalhos e aí participar de trajetórias, de carreiras que encontram alguma acolhida por parte das distribuidoras”, completa Consani.
Os incentivos na produção se refletem em bons resultados, como a indicação ao Oscar de Melhor Animação, em 2013, pelo filme O Menino e o Mundo, de Alê Abreu. Outros prêmios e destaques se dão aos badalados Irmão do Jorel e Show da Luna, ambos contando com apoios da Ancine. Além da exibição, as produtoras ainda encontram a possibilidade de lucrar com o marketing de seus personagens em produtos e eventos, capilarizando suas fontes de renda.
Sobre a pandemia de covid-19, o isolamento social impediu e atrasou a criação de obras audiovisuais em live-action, estimulou o home office— método de relativa fácil aplicação à produção de animações— e aumentou o interesse de contratos internacionais com produtoras brasileiras devido à alta do dólar no período. Embora num primeiro momento as animações também tenham atrasado sua produção, tais mudanças possibilitaram um retorno consistente da atividade das produtoras.
Por fim, importante ressaltar que esse espraiamento das animações brasileiras é mais visível nos canais digitais e no streaming, não necessariamente se refletindo em mais programação infantil na TV aberta. Torna-se importante problematizar quem tem acesso às animações brasileiras, principalmente considerando as plataformas e empresas que buscam projetos com origem no Brasil. “O que se encontra na literatura acadêmica e também em estatísticas da Ancine, dos órgãos brasileiros que lidam com monitoramento de produções, principalmente pelo viés de pedido de fomento, existe essa perspectiva, um incremento consistente na produção que, ressalve-se, não encontra uma correspondência direta no quesito de distribuição. Hoje em dia, se um produtor tem um projeto, esse projeto participa de pitchings, esses pitchings são direcionados para investidores, esses investidores avaliam a viabilidade econômica do projeto antes de fazer qualquer tipo de aporte. Uma coisa é meio amarrada na outra. Nesse sentido, as leis que tentaram regular a circulação, promover, incentivar conteúdo nacional, normalmente, não obtiveram resultado. O que teve resultado foram as leis de incentivo”, completa Consani.
Por Henrique Giacomin, do Jornal da USP
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