Cultura gospel reflete lógica neoliberal e transforma fé em estilo de vida centrado no consumo, analisa pesquisadora 📸 © Rovena Rosa/Agência Brasil

O avanço do mercado de consumo cristão no Brasil expressa uma transformação profunda na forma de viver a fé, avalia a pesquisadora em religião e política Magali Cunha. Ao Brasil de Fato, ela afirma que o fenômeno, impulsionado pela chamada “cultura gospel”, revela a incorporação da lógica neoliberal ao universo religioso. “É um fenômeno religioso interagindo com o que estava acontecendo socialmente. O neoliberalismo trouxe a lógica do consumo, e a religião se ajustou a essas transformações”, explica.

Segundo Magali, a explosão de produtos e serviços com marca religiosa, que vai de livros devocionais como Café com Deus Pai, best-seller de 2024, a academias cristãs, está ligada à transformação dos modos de culto e à consolidação de uma indústria da fé. “A cultura gospel é um modo de ser cristão evangélico transformado pela música, pelo entretenimento e pelo mercado. Surge uma nova forma de viver a fé, muito centrada na performance, na moda e no consumo”, aponta.

A pesquisadora aponta que as redes sociais ampliaram essa lógica, criando influenciadores religiosos e fenômenos editoriais. “As mídias são fundamentais para essa cultura. Elas criam novas celebridades religiosas e tornam o cotidiano da fé um espetáculo de consumo”, observa.

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Para ela, o sucesso de produtos como Café com Deus Pai é resultado direto da “cultura digital gospel”, que transforma devoção em engajamento e audiência. “Muita gente está descobrindo isso agora por conta desse destaque digital, por ser um influencer, por ser um material divulgado, amplificado em mídias digitais”, indica.

Valores conservadores e prosperidade material

Embora muitos produtos evitem vínculos partidários, Cunha afirma que a maioria deles reflete valores conservadores. “Boa parte dessas produções têm um caráter mais conservador, ideologicamente alinhado ao mundo conservador, justamente por tocar em temas que têm um apelo no campo da sexualidade, de uma religiosidade mais intimista, mais voltada para si, para realizações pessoais”, avalia.

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Essa tendência, segundo a pesquisadora, reforça ideais individualistas e de prosperidade material. “A teologia da prosperidade responde à lógica do livre mercado. Ela diz: somos aquilo que temos, e se temos, é porque Deus concedeu. O consumo vira expressão da fé”, analisa.

Magali relaciona ainda o consumo à repressão histórica do corpo no meio evangélico. “Há um controle muito forte do corpo: não dançar, não beber, não se tatuar. O consumo passa a preencher o anseio por prazer, por satisfação, que o corpo não pode viver de outras formas”, explica.

Ela destaca o surgimento das chamadas “igrejas cool”, espaços que mantêm uma teologia conservadora, mas adotam práticas mais flexíveis. “São grupos alternativos que buscam viver a fé de forma mais livre, sem o peso da instituição, mas ainda dentro da lógica do mercado e da cultura gospel”, diz.

Por Adele Robichez e Raquel Setz, do Brasil de Fato

|📸 © Marcello Casal Jr./Agência Brasil