Seis anos após primeira morte de covid, relatório aponta necessidade de políticas públicas na saúde 📸 © Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

A primeira morte por covid-19 no Brasil ocorreu no dia 12 de março de 2020, há exatamente seis anos. A epidemia felizmente ficou no passado, mas seus efeitos, de uma forma ou de outra, se fazem presentes ainda hoje, acima de tudo por trazer lembranças para as muitas pessoas que perderam entes queridos e que gostariam de se ver livres dessas recordações. Num cenário que resultou em mais de 776 milhões de casos confirmados em todo o planeta, com mais de sete milhões de mortes, o vilão é o coronavírus e o mocinho, a ciência, que concluiu um estudo sobre a doença e as populações vulneráveis no Brasil, estudo esse feito em parceria com o Instituto Butantã. Na verdade, é o primeiro trabalho a avaliar a soroprevalência de Sars-Cov-2 entre participantes do Programa Saúde da Família, uma população socioeconomicamente vulnerável, atendida pelo sistema público de saúde da atenção primária.

O estudo sorológico, denominado Avaliação da Incidência da Infecção de Sars-Cov-2 no Brasil, foi liderado pelo Instituto Butantã e consistiu em recrutar famílias em 11 cidades, distribuídas em quatro regiões do País, buscando avaliar evidências, por meio de testes mensais de sangue, de infecções prévias por Sars-Cov-2. Um total de 2.986 de indivíduos participou da primeira avaliação do estudo, que apresentou um índice de evidência de contaminação pelo coronavírus de quase 36%. Para efeitos de comparação, basta dizer que, em populações representativas de outros estratos sociais, o nível de soroprevalência ficou entre 9% e 11%.

A contribuição do estudo foi mostrar que, quanto mais vulnerável socialmente, mais essa camada da população, que dependia do SUS,  esteve exposta ao vírus, informa a professora Lorena Barberia, do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, uma das autoras desse trabalho. Segundo ela, entre algumas constatações, algumas se sobressaem, como a que mostra que os indivíduos que se autodeclaravam brancos tiveram uma menor chance de ter infecção prévia do que aqueles que se autodeclaravam pretos ou pardos. “Os indivíduos que moravam em famílias com mais de seis pessoas em casa tinham mais chances de ter uma infecção prévia por Sars-Cov-2”, diz ela.

Outra constatação foi a de que moradores das regiões Norte e Nordeste (como Boa Vista e Fortaleza, retrospectivamente) tinham maiores chances de testar positivo para o vírus do que os habitantes localizados na região Sudeste do País.

Importância do estudo

Para Lorena, “esse estudo é superimportante, que não nos ajuda só retrospectivamente para compreender o que aconteceu durante a pandemia, [mas também] porque a gente está mostrando que as famílias mais vulneráveis tiveram uma exposição maior, e essa é uma questão importante para trazer para futuras emergências sanitárias. Sabemos que essas famílias, por causa da renda menor, tinham de frequentar transporte público, tinham que normalmente sair de casa, e moravam com mais pessoas em casa. A consequência de tudo isso é que estamos trazendo evidências muito diretas de qual foi a magnitude da diferença, nessa população, de quanto a mais essa exposição se traduziu em casos positivos nessas famílias”.

A professora deposita suas esperanças em que esse tipo de estudo ajude na elaboração de políticas públicas para atender essa população mais vulnerável em futuras emergências sanitárias. “Temos que desenhar políticas e pensar na prevenção para proteger essas camadas mais vulneráveis, talvez desenvolver especificamente programas para essas populações, além do auxílio emergencial, uma transferência de renda que foi importante para garantir apoio material, mas, além disso, existem outras questões sobre as quais se debruçar, incluindo o fato de que pessoas que tinham doenças, que precisavam frequentar os postos de saúde não poderiam isolar-se em casa. Precisamos desenvolver e pensar nisso de uma forma de como podemos reagir melhor, e isso requer preparação.” Ela entende que o que se viveu durante a pandemia de covid-19 pode ensinar muito no enfrentamento de outras emergências sanitárias, focando, acima de tudo, no universo das famílias socialmente mais desfavorecidas.

As informações são do Jornal da USP

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