Uma medida simples, como esperar a bebida esfriar, já reduz o risco 📸© StockSnap

O Brasil é o maior consumidor per capita de café do mundo. Foram cerca de 1.400 xícaras por pessoa no ano passado, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café. Mas, além da quantidade, é preciso prestar atenção à temperatura da bebida. Um estudo da Universidade de Oxford, no Reino Unido, com quase 1 milhão de pessoas, constatou que quem consome bebidas muito quentes tem três vezes mais chance de desenvolver câncer de esôfago em comparação com pessoas que as ingerem em temperaturas mais baixas.

O tipo de câncer analisado é o carcinoma de células escamosas, também chamado de carcinoma epidermoide, que se desenvolve nas células planas que revestem a parte interna do esôfago. A pesquisa também observou que o consumo de seis ou mais bebidas quentes por dia aumentou em 71% o risco desse tipo de tumor, independentemente de a temperatura ser classificada como “muito quente”, “quente” ou “morna”.

Um câncer associado à temperatura

O câncer ocorre quando há crescimento descontrolado das células. No esôfago, o tumor pode “progredir desde a mucosa, a camada mais superficial, até as camadas mais profundas, podendo até se espalhar por outras partes do organismo”, explica Ulysses Ribeiro Júnior, professor da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e especialista em gastroenterologia.

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Ainda não existe consenso sobre os mecanismos que explicam a relação entre bebidas muito quentes e o câncer de esôfago. Uma das principais hipóteses, segundo o professor, é que a alta temperatura provoque uma lesão térmica na mucosa do órgão, desencadeando uma inflamação local. A repetição desse processo pode facilitar a ação de outras substâncias cancerígenas, como as presentes no tabaco e no álcool, sobre as células que revestem o esôfago.

Nas fases iniciais, o carcinoma epidermoide geralmente não apresenta sintomas, “porque o esôfago é um órgão muito elástico”, explica o especialista. Quando surgem sinais como dificuldade para engolir, perda de peso, dor no peito, vômitos e sangramento, a doença pode já estar em estágio mais avançado.

Bebidas quentes e câncer no Brasil

Ribeiro Júnior destaca que o carcinoma de células escamosas é o tipo mais comum de câncer de esôfago no Brasil e está associado a fatores de risco como o consumo de bebidas alcoólicas e o tabagismo. Quando relacionado ao consumo de bebidas muito quentes, o tumor costuma se localizar nos terços superior e médio do esôfago, “justamente onde a bebida quente encontra a mucosa do esôfago”, explica.

O café é consumido em todo o País, mas a região Sul concentra mais casos de carcinoma epidermoide do esôfago do que outras regiões. Um dos fatores associados a esse cenário é o consumo de chimarrão. Segundo o professor, “os dados epidemiológicos regionais do Rio Grande do Sul mostram uma incidência do câncer de esôfago de cerca de 14,3 por 100 mil homens, até cinco vezes mais do que a taxa encontrada no restante do País”.

Um estudo realizado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) entrevistou moradores de Taquara (RS) e mediu a temperatura do chimarrão consumido. Os pesquisadores observaram que 97,2% dos entrevistados consumiam a bebida diariamente e que 72% a ingeriam a temperaturas superiores a 60°C, faixa semelhante à analisada pelos pesquisadores de Oxford.

Para quem gosta de café ou chimarrão, a medida para reduzir a exposição ao risco associado à temperatura é simples: esperar a bebida esfriar. “É só deixar esfriar um pouquinho”, aconselha o especialista. No estudo de Oxford, os pesquisadores estimaram que substituir o consumo de bebidas “muito quentes” por bebidas “quentes” poderia evitar cerca de 14% dos casos de carcinoma de células escamosas. “Seu esôfago vai agradecer bastante”, brinca.

Por Frederico Gomes e Marcia Avanza, do Jornal da USP

|📸© Anastasia Shuraeva

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