|🔬 Cortes de Donald Trump vão retroceder programa de cuidados e prevenção HIV/aids no mundo

A Organização Mundial da Saúde alerta que o mundo pode regredir aos anos 1980 e 1990, quando milhões de pessoas morreram de aids globalmente, devido ao cancelamento do PEPFAR — Plano Emergencial Americano de Ajuda para Combater a Aids.
Os Estados Unidos são o maior financiador mundial de programas de combate à doença, mas tiveram suas verbas suspensas no início do ano pelo presidente Donald Trump.
Mas já é possível mensurar o impacto desses cortes? Segundo Ricardo Vasconcelos, médico infectologista e coordenador do Centro de Pesquisa Clínica do HCFMUSP, ainda é cedo para perceber efeitos concretos: “Em seis meses, não dá para a gente ver, por exemplo, aumento dos novos casos de infecção por HIV no mundo, nem tampouco aumento de mortes em decorrência da doença”, explica.
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Vacinas, tratamento e prevenção em risco
Os Estados Unidos financiavam diversas frentes no combate à aids: prevenção, cuidados médicos, pesquisas, desenvolvimento de tratamentos e vacinas contra o HIV. A grande dúvida agora é saber qual país poderá assumir esse protagonismo.
“China, França, Alemanha e Reino Unido têm grande potencial para investimentos, mas, ainda que isso ocorra, o valor é baixo comparado ao dos EUA. Estamos aguardando para ver quem — e se alguém — vai assumir esse lugar. O NIH (National Institutes of Health) norte-americano tinha enormes linhas de financiamento para pesquisas ao redor do mundo, envolvendo novos tratamentos e vacinas”, avalia o infectologista. A decisão impacta diretamente países em desenvolvimento e, sobretudo, a África Subsaariana — regiões altamente dependentes do repasse de verbas internacionais.
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Brasil tem autonomia na assistência, mas pode sofrer em pesquisa
No caso do Brasil, o atendimento assistencial não deve ser comprometido, segundo Vasconcelos. O País conseguiu montar, ao longo de quatro décadas de epidemia, um programa autossuficiente: “Na parte da assistência — pagar o tratamento de quem vive com HIV e o salário de quem trabalha com isso — o impacto é mínimo. Conseguimos montar um programa que é absolutamente autossuficiente, tanto no financiamento quanto na produção de medicamentos, insumos e testes”, afirma.
Contudo, o desenvolvimento de pesquisas deve sofrer impactos diretos. Isso inclui, por exemplo, os esforços para criar uma vacina eficaz contra o vírus do HIV. “Desde os anos 1980, há pesquisas sobre vacinas preventivas. No entanto, nunca conseguimos uma com eficácia suficientemente alta para ser adotada como política pública. Como esse desenvolvimento dependia majoritariamente de financiamento norte-americano, com esse corte, está tudo paralisado”, lamenta.
Uma ameaça à saúde pública global
Vasconcelos lembra que a pandemia de covid-19 ensinou ao mundo uma lição importante: “A epidemia não respeita fronteiras, nações nem passaportes”. Por isso, segundo ele, o impacto será sentido mundialmente, com provável elevação no número de novos casos de HIV e mortes por aids. Desde 2010, os índices vinham caindo — mas estudos recentes já indicam expectativa de aumento. A decisão do governo norte-americano, conclui Vasconcelos, é um duro golpe para a ciência e para a saúde pública global.
Por Sandra Capomaccio e Moisés Dorado, do Jornal da USP
|📸 © Anna Shvets via Pexels
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