O autor do crime, Igor Cabral, foi preso em flagrante 📾 © Reprodução/Circuito de Segurança

Os 61 socos desferidos contra Juliana Garcia, na cidade de Natal (RN), no Ășltimo sĂĄbado (26/07/2025), chocaram o Brasil diante da violĂȘncia flagrada por uma cĂąmera no elevador do prĂ©dio. O autor do crime, o namorado dela, Igor Cabral, foi preso em flagrante. O episĂłdio, que chamou atenção de todo o paĂ­s, traz Ă  tona a escalada da violĂȘncia no paĂ­s contra a mulher: tanto pelo que Ă© registrado, como no caso de Juliana, como tambĂ©m pelos aspectos subjetivos que nĂŁo sĂŁo possĂ­veis de contabilizar. 

Um dos motivos pelo qual o crime chamou atenção foram os repetidos golpes no rosto da vĂ­tima, que se encontrava indefesa e caĂ­da no chĂŁo do elevador. Segundo especialistas ouvidas pela AgĂȘncia Brasil, o ato carrega um simbolismo ancorado na cultura machista. â€œAgressores normalmente atacam o feminino do corpo humano, (incluindo) rosto, seios e ventre como um recado de que aquele corpo pertence a eles”, afirma a promotora de Justiça do MinistĂ©rio PĂșblico de SĂŁo Paulo (MP-SP), ValĂ©ria Scarance. Ela destaca que agressores praticam atos de violĂȘncia imbuĂ­dos de um sentimento de posse e superioridade em relação Ă s mulheres.

A antropĂłloga Analba BrazĂŁo, que Ă© educadora do SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia, considera que esses ataques contra a mulher em regiĂ”es como o rosto tĂȘm como objetivo desfigurar a vĂ­tima.

“Atingir o rosto tambĂ©m demonstra poder. Ele quer aniquilar aquela mulher e deixar visĂ­vel a sua marca”, lamenta.

Essas violĂȘncias no corpo da mulher e na expressĂŁo do feminino tĂȘm uma simbologia marcante, conforme aponta TĂ©lia NegrĂŁo, pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É o que acontece quando criminosos mutilam, por exemplo, os seios ou a regiĂŁo genitais. â€œHĂĄ atĂ© chutes na ĂĄrea da barriga da mulher como forma de destruir a sua capacidade reprodutiva posterior”, diz TĂ©lia, que faz parte do Levante Feminista contra o FeminicĂ­dio e TransfeminicĂ­dio.

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Quatro mulheres mortas por dia

De acordo com o Ășltimo AnuĂĄrio Brasileiro de Segurança PĂșblica, divulgado na semana passada, houve novo aumento no nĂșmero de feminicĂ­dios, que chegou a 1.492 casos em 2024O nĂșmero representa quatro mortes de mulheres por dia. Ă‰ a maior quantidade desse tipo de crime desde 2015, inĂ­cio da sĂ©rie histĂłrica. Segundo o levantamento, 63,6% das vĂ­timas eram negras. AlĂ©m disso, 70,5% tinham entre 18 e 44 anos e oito em cada dez foram mortas por companheiros ou ex-companheiros. Os feminicĂ­dios dentro de casa sĂŁo maioria (64,3%).

Jå os casos de tentativa de feminicídio, como o ocorrido com Juliana, em Natal, foram 3870 no ano passado, 19% a mais do que no ano anterior. As agressÔes registradas contra mulheres foram de 256.584 casos (em 2023) para 257.659 (no ano passado).

Para a promotora ValĂ©ria Scarance, do MP-SP, desde a Lei Maria da Penha instaurou-se um “novo tempo” no Brasil, em que a violĂȘncia contra mulheres deixou o Ăąmbito privado e ganhou domĂ­nio pĂșblico. “Antes, era comum que as pessoas nĂŁo se manifestassem diante de uma ‘briga de casal’. Mas, hoje, a sociedade estĂĄ atenta a essas violĂȘncias, inclusive as que eram consideradas menos graves”, contextualiza.

Ao mesmo tempo em que a legislação brasileira Ă© considerada uma das melhores do mundo no combate ao feminicĂ­dio, as pesquisadoras apontam que discursos de misoginia, atĂ© mesmo de autoridades pĂșblicas, cresceram com a ascensĂŁo de partidos da extrema direita no mundo, incluindo o Brasil. ValĂ©ria Scarance analisa que o aumento da violĂȘncia contra as mulheres seria uma espĂ©cie de reação da estrutura machista da sociedade ao empoderamento e ao fortalecimento das mulheres – o que ela chama de fenĂŽmeno “backlash ou retaliação”. A antropĂłloga Analba BrazĂŁo vĂȘ um movimento antifeminista na sociedade em prol de um machismo estrutural que relega as mulheres a um papel secundĂĄrio.

Ciclo e escalada da violĂȘncia

A promotora ValĂ©ria Scarance, que tambĂ©m Ă© pesquisadora da temĂĄtica de gĂȘnero, violĂȘncia contra mulheres e feminicĂ­dio, explica que, no Ăąmbito Ă­ntimo, as violĂȘncias mais severas acontecem quando hĂĄ o tĂ©rmino da relação ou quando a vĂ­tima nĂŁo atende Ă s ordens ou desejos do agressor.  â€œEsses homens sĂŁo ao mesmo tempo egocĂȘntricos e inseguros porque qualquer conduta da vĂ­tima –  passar batom, usar roupas novas, trabalhar, ter amigas, sorrir – pode ser interpretada por eles como um ato de desrespeito ou traição”, exemplifica. A promotora contextualiza que, no inĂ­cio, as agressĂ”es ocorrem em locais pouco visĂ­veis. “Mas Ă  medida que a violĂȘncia evolui, agressores dĂŁo socos no rosto, chutes no corpo, puxam os cabelos, apertam o pescoço das vĂ­timas”.

Um dos dados divulgados no AnuĂĄrio Brasileiro de Segurança PĂșblica exemplifica os desafios para garantir a segurança das mulheres brasileiras: ao menos 121 vĂ­timas foram mortas em 2023 e 2024 enquanto estavam sob medidas protetivas de urgĂȘncia ativa.

“A cada 15 segundos, uma mulher estĂĄ sendo espancada no Brasil. E normalmente nĂŁo hĂĄ cĂąmeras como o caso que foi flagrado em Natal. Acontece em ĂĄreas isoladas dentro de casa”, diz Analba BrazĂŁo, que defende serem necessĂĄrias mais polĂ­ticas pĂșblicas para estimular novas denĂșncias. “Muitos casos nĂŁo sĂŁo notificados. A gente precisa saber, por exemplo, quantos ĂłrfĂŁos do feminicĂ­dio existem”, afirma a pesquisadora, que atua no Recife (PE).  “Nesta semana, aqui em Pernambuco, uma manicure foi assassinada a facadas, tambĂ©m no rosto e em outras partes do corpo. Ela estava com medida protetiva de urgĂȘncia”, lamenta. 

TĂ©lia NegrĂŁo entende que sĂŁo necessĂĄrias polĂ­ticas pĂșblicas mais profundas que consigam promover uma mudança cultural. “NĂłs temos julgamentos que tĂȘm elevado as puniçÔes devido aos agravantes. E, no entanto, nĂłs nĂŁo temos uma redução dos feminicĂ­dios ou da violĂȘncia. NĂłs precisamos de mudança cultural”, acredita a pesquisadora que atua no Rio Grande do Sul.

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DenĂșncias

Pesquisadora em direito penal e coordenadora da Quilombo, organização do movimento negro no Rio Grande do Norte, Dalvaci Neves conta que mais de mil mulheres foram vĂ­timas de feminicĂ­dio no Rio Grande do Norte, entre 2013 e 2023 – 80% eram  negras. “É um retrato do nosso quadro social, do racismo e do machismo que nĂłs, mulheres negras, enfrentamos”. De acordo com ela, no estado, existem apenas 12 delegacias especializadas para atendimento das mulheres em mais de 160 municĂ­pios. â€œHĂĄ muitas mulheres no interior e sem acesso para fazerem denĂșncia”.

A falta de delegacias especializadas nĂŁo Ă© um problema apenas do Rio Grande do Norte. Em todo o paĂ­s, segundo levantamento do MinistĂ©rio da Justiça e da Segurança PĂșblica divulgado neste ano, hĂĄ apenas 488 delegacias especializadas, sendo que apenas 204 delas atendem exclusivamente mulheres. Desse total, 46,4% estĂŁo no Sudeste.

Ainda no campo das polĂ­ticas pĂșblicas, a pesquisadora defende ser necessĂĄrio mais discussĂŁo sobre violĂȘncia de gĂȘnero nas escolas.  â€œO Plano Nacional de Educação vai ser votado agora [no Congresso Nacional]. Precisamos ter uma educação de combate ao racismo, e que tambĂ©m discuta gĂȘnero. Mas nĂłs temos ainda muitos parlamentares que nĂŁo querem que esse tema seja incluĂ­do”, aponta.

Dalvaci recomenda que as mulheres que sejam vĂ­timas prestem queixa, mesmo em casos aparentemente menos graves como desrespeitos e xingamentos, que configuram violĂȘncia psicolĂłgica. Ela ressalta ainda a importĂąncia de que as pessoas nĂŁo silenciem quando forem testemunhas de violĂȘncia. “Dessa forma, podemos evitar um feminicĂ­dio no futuro”, afirma.

Como denunciar

Se a mulher Ă© vĂ­tima da violĂȘncia ou se uma testemunha presenciar algum tipo de agressĂŁo, pode denunciar pela Central de Atendimento Ă  Mulher, o Ligue 180, que funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana. O  serviço gratuito e acessĂ­vel em todo o paĂ­s.  

Por esse canal, Ă© possĂ­vel receber orientação sobre leis, direitos e serviços da rede de atendimento, como a Casa da Mulher Brasileira, os centros de referĂȘncias, as delegacias de atendimento Ă  mulher (Deam), as defensorias pĂșblicas e os nĂșcleos integrados de atendimento Ă s mulheres.

O Ligue 180 faz o registro e encaminhamento de denĂșncias aos ĂłrgĂŁos. Ă‰ possĂ­vel fazer a ligação de qualquer lugar do Brasil ou acionar o canal via chat no Whatsapp (61) 9610-0180. 

Em casos de emergĂȘncia, a orientação Ă© acionar imediatamente a PolĂ­cia Militar pelo nĂșmero 190, em todo o Brasil. 

Outro caminho disponĂ­vel Ă© via MinistĂ©rio da Mulher, da FamĂ­lia e dos Direitos Humanos pelo canal do WhatsApp (61)99656-5008. Funciona 24 horas para denunciar qualquer tipo de violĂȘncia.

Com informaçÔes de Luiz ClĂĄudio Ferreira, da AgĂȘncia Brasil

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