A oposição paraibana entre as esquinas da unidade e o labirinto da fragmentação
A oposição na Paraíba não dorme — mas sofre com a insônia da indefinição. Em 2026, o relógio eleitoral já gira e impõe os seus rumos. No entanto, o bloco oposicionista ao governo de João Azevêdo (PSB) encara, hoje, dois dilemas de peso: a construção de uma unidade expressiva e a definição de uma narrativa convincente para desfazer seu próprio desfavorecimento.
O mosaico de nomes — e a dificuldade de unir
Nas últimas semanas, o deputado federal Ruy Carneiro (Podemos) fez declarações que expõem uma realidade incômoda para quem deseja se apresentar ao eleitor como “a” oposição: “eu acho impossível hoje a oposição ter só um candidato”. Em paralelo, o presidente estadual do PSD, Pedro Cunha Lima, reafirma sua pré-candidatura ao governo, mas deixa a porta entreaberta para composições com Cícero Lucena (MDB) e o senador Efraim Filho (União Brasil). O quadro, assim, pinta mais como um “encontro de veleiros” à deriva do que como uma frota em ordem de batalha.
Essa dispersão concede ao governo um campo de vantagem. Sem um nome consensual ou, ao menos, um plano comum, a oposição corre o risco de se eternizar nos bastidores de 2026 — enquanto o aparato governista segue articulando com solidez.
Não significa que o campo oposicionista esteja paralisado. Há movimentações. No município de Desterro, por exemplo, um grupo de oposição liderado pelo empresário “Ika Veículos” anunciou apoio à reeleição do deputado federal Wilson Santiago (Republicanos) — reforçando base política no Sertão. Na esfera institucional, a deputada estadual Camila Toscano (PSDB) condicionou possível suporte ao prefeito Cícero Lucena somente se este assumir claramente posição de oposição ao governo estadual. São movimentos pontuais, regionais, estratégicos — que indicam: a oposição sabe que precisa agir, que o tempo corre. Mas os sinais ainda se dispersam entre municípios, lideranças e interesses locais — e não há ainda um binário Estado-todo que reúna e traduza esse mosaico em projeto.
O discurso adversário — sob ataque e sem alternativa forte
Do outro lado, o governo faz o contraponto. O secretário Ari Reis chegou a afirmar que “a oposição representa risco de salários atrasados, de falta de combustível” — evocando memórias de instabilidade que o Estado já viveu. Essa é uma cartada clássica: pintar o adversário como retorno ao passado incerto, enquanto se coloca como guardião da continuidade e da ordem. E, de fato, o governo trabalha para transmitir ao eleitor que “não é hora de trocar o motorista do carro em movimento”.
A oposição, por sua vez, ainda não respondeu com força simbólica esse desafio. Carece de um discurso que vá além da “somos contra” ou “é preciso mudança”. Precisa, antes, apresentar uma alternativa clara — seja de nomes, seja de projeto — que convença o eleitorado estadual de que mudar vale o risco.
As encruzilhadas de 2026
Se olharmos adiante, três vetores aparecem como decisivos para o bloco oposicionista da Paraíba:
- União ou dispersão – Se a oposição não conseguir montar até o início de 2026 uma aliança ampla ou um nome com capacidade de compor em segundo turno, corre o risco de ver sua força pulverizada em múltiplas candidaturas, beneficiando o governo.
- Construir rede regional – Os grandes colégios eleitorais medem força também pela interiorização. Onde houver base forte no interior (como já se nota no Sertão), haverá a possibilidade de disputa competitiva.
- Definir e comunicar um projeto – O eleitor quer saber qual será a novidade, qual o diferencial. Rejeição sozinha não basta. É preciso apresentar “para onde vamos” — e mostrar que haverá competência técnica, articulação e capacidade de governar.
Epílogo — O relógio já gira
Na Paraíba, não há mais tempo para preparação tímida. O campo oposicionista teve seu momento de reflexão; agora começa o momento de escolha. O relógio de 2026 já está correndo — e a máquina partidária, a duras penas, vai se ajustando.
Quando o eleitor olhar para os nomes do outro lado do Palácio da Redenção, vai querer mais do que promessas genéricas: vai questionar se existe unidade, se a coalizão funciona e se há programa. E se a oposição não conseguir dar essa resposta com clareza, corre o risco de assistir à continuidade do governo como simples expectadora — novamente.
Em última instância, a vitória ou derrota do próximo pleito passará tanto pela capacidade de unir quanto pela ousadia de renovar. A oposição paraibana precisa fazer as duas coisas — e rápido. Se não fizer, corre o risco de ver 2026 como o ano em que deixou passar a oportunidade.

