|💬 ‘Há momentos em que se pede mais ação e menos poesia’, diz Zeca Baleiro sobre a Venezuela

O debate sobre felicidade, tão antigo quanto a própria humanidade, ganha novos contornos no mundo hiper conectado de hoje. É a partir dessa inquietação que Zeca Baleiro integra o elenco da peça Felicidade, em cartaz a partir desta quarta-feira (07/01/2026), levando aos palcos reflexões sobre alegria, frustração e o tempo em que vivemos.
Inspirada na canção Vai, ou Menina, Amanhã de Manhã, de Tom Zé, a montagem parte de uma música que, apesar do tom leve, faz uma crítica à ditadura militar. Em entrevista ao Brasil de Fato, Baleiro afirmou que sua relação com a arte sempre esteve ligada à consciência do tempo presente, marcada por uma vivência mais contemplativa em São Luís do Maranhão.
“A arte, a cultura e o fazer artístico sempre estiveram ligados, para mim, à consciência do mundo e do tempo em que a gente está vivendo”, disse. Para ele, o humor é uma ferramenta central para transmitir pensamento crítico. “Através do humor você chega mais fácil ao público. Primeiro vem o riso, depois a mensagem”, afirma.
Desde o início da carreira, o artista encara a arte como uma forma de estar no mundo e de defender valores como justiça social e direitos humanos, mesmo reconhecendo o caráter utópico dessa visão. Ao comentar o cenário político internacional e crises recentes, Baleiro pondera sobre os limites da criação artística diante de contextos extremos.
“Acho que posso fazer uma canção linda, épica, quase uma saga, mas não sei se isso colabora efetivamente para a resolução de um problema de tal magnitude. Nessa hora, acredito que se exige uma ação mais política: ir às ruas, protestar, usar as redes sociais, como fiz na última eleição, quando me coloquei no lugar que julgo ser o certo da história, e como me colocarei novamente este ano, que é um ano eleitoral. A arte tem força, mas há momentos em que o contexto pede mais ação direta e menos poesia”, afirmou.
_________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
|👉 LEIA TAMBÉM:
________________________________________________________________________________________________________________________________________
Embora esteja em cena de uma forma diferente, o teatro não é novidade em sua trajetória. Baleiro iniciou sua relação com a música nos palcos e, em Felicidade, assume uma figura simbólica, próxima de um mensageiro que anuncia transformações ao longo da narrativa.
Para o artista, o espetáculo dialoga com a obsessão contemporânea pela felicidade, intensificada pelas redes sociais, e também absorve o clima político do mundo atual. Conflitos e crises entram em cena de forma sutil, reforçando que a arte não acontece de forma isolada, mas reage e tensiona o tempo em que está inserida.
Veja destaques da entrevista
Brasil de Fato: Ao começar 2026, o cenário da Venezuela chama atenção e a arte brasileira parece refletir esse momento. A peça Felicidade, inspirada numa música do Tom Zé, uma sátira à ditadura, dialoga com isso de alguma forma?
Zeca Baleiro: Para mim, a música sempre foi algo mais casual, uma canção livre. Ela acabou inspirando o Caco Galhardo, que é cartunista e dramaturgo, a escrever o texto. Depois, a Dani Angelotti, produtora e diretora da peça, me convidou para compor o restante das canções e eu fiz uma para cada personagem.
Todo o processo foi muito divertido, porque pensar sobre o tempo em que a gente vive, suas doenças e suas neuroses, também é uma forma política de estar no mundo e de fazer arte.
Zeca, como tem sido a experiência de subir ao palco de uma forma diferente?
O teatro não é uma novidade na minha vida. Na verdade, eu comecei na música por meio do teatro.
Foi o teatro que me tirou de casa, daquele quarto onde eu compunha de forma solitária com alguns amigos. Um amigo mais velho, o Lio Ribeiro, tinha um grupo de teatro amador chamado Ganzola e me convidou para compor. Eu fiquei inseguro no começo, porque, apesar de já compor e participar de festivais, não tinha essa experiência.
A primeira montagem foi Flicts, do Ziraldo, adaptado pelo Aderbal Freire Filho. É um texto muito atual, que fala de preconceito, tolerância e convivência social. A história da cor que ninguém reconhecia e que, no fim, era a cor do luar é muito poética.
A peça tinha uma trilha original do Sérgio Ricardo, mas o grupo queria algo mais fresco, mais pop, e me convidou para compor. Essa foi minha primeira experiência teatral. Eu tocava em cena, não tinha falas, não atuava. Não sou ator e continuo não sendo. Acho um ofício sério demais para desrespeitar. Agora, nessa peça, faço algo como um anjo erê.
A Dani deixou claro que eu não precisaria atuar, apenas ser o que já sou no palco dos shows. Isso me deixou muito à vontade. Eu entro, canto, anuncio acontecimentos, quase como um arauto das transformações da peça. E aí tudo ficou mais natural e divertido.
Zeca, queria te ouvir sobre o enredo da peça Felicidade. Ela dialoga com a música do Tom Zé e parece fazer uma crítica à obrigação de sermos felizes o tempo todo, algo que hoje se intensifica nas redes sociais. Isso conversa com a crise do mundo digital?
A felicidade sempre foi um dilema humano. Grandes pensadores e artistas já trataram desse tema de várias formas, desde um prazer fugaz até uma utopia impossível de se sustentar, porque a vida é feita de dor e de alegria.
O que acontece hoje é que essa busca ganhou ares de doença, de neurose. Vivemos um tempo muito hedonista, muito autocentrado. As redes sociais potencializam isso, porque são canais pessoais onde tudo pode ser editado.
Você pode estar vivendo uma crise familiar, mas posta uma dança com os filhos e tudo parece resolvido. Existe também a busca da felicidade por meio das novas drogas, as chamadas drogas da felicidade.
Eu acredito que a felicidade pessoal depende muito da felicidade coletiva. É preciso muito egoísmo para se sentir completamente feliz em um mundo marcado por fome, desigualdade, guerras e pessoas sendo obrigadas a deixar seus países.
Esse contexto político atual, com conflitos e crises perto do Brasil, afeta o trabalho de vocês em cena? Muda algo no palco?
Afeta, sim. A gente conversa muito sobre isso nos bastidores. No ensaio geral, por exemplo, um dos atores, o William Mesacappa, fez uma alusão sutil à situação da Venezuela dentro do diálogo da peça, e funcionou muito bem.
O texto é da época da pandemia e já traz falas fortes sobre o mundo em crise. Ele fala de estátuas sendo derrubadas, de um mundo em colapso, enquanto alguém insiste em estar feliz. Essa atualização do texto é uma forma de dialogar com a contemporaneidade.
A alegria pessoal é legítima, mas não pode ser alienada do que está acontecendo no mundo. A gente não pode viver em sofrimento constante, mas também não pode fingir que nada está acontecendo. A arte serve justamente para tensionar esse equilíbrio.
Zeca, diante dessa ideia de utopia e do papel da arte, você acha que o que está acontecendo hoje na Venezuela, após a invasão dos Estados Unidos, pode inspirar alguma composição ou trabalho artístico, seu ou coletivo?
Acho que posso fazer uma canção linda, épica, quase uma saga, mas não sei se isso colabora efetivamente para a resolução de um problema de tal magnitude. Nessa hora, acredito que se exige uma ação mais política: ir às ruas, protestar, usar as redes sociais, como fiz na última eleição, quando me coloquei no lugar que julgo ser o certo da história, e como me colocarei novamente este ano, que é um ano eleitoral. A arte tem força, mas há momentos em que o contexto pede mais ação direta e menos poesia.
Por Aline Macedo e Lucas Salum, do Brasil de Fato
|📸 © Joédson Alves/Agência Brasil
Rádio Centro Cajazeiras

