Mesmo com mais gente trabalhando e a renda média em alta, milhões de brasileiros seguem enfrentando dificuldades para fechar as contas no fim do mês. O cenário, que parece contraditório à primeira vista, voltou ao centro do debate econômico após o governo federal lançar uma nova edição do programa Desenrola Brasil, voltado à renegociação de dívidas da população.

📸 Crédito: Nicola Barts / Pexels

A expectativa é que o programa alcance cerca de 20 milhões de pessoas e movimente até R$ 58 bilhões em renegociações. O problema, porém, vai muito além das dívidas acumuladas. Especialistas alertam que o país vive uma combinação perigosa entre custo de vida elevado, juros altos, consumo impulsionado pelo crédito e falta de educação financeira.

Dados da Confederação Nacional do Comércio mostram que o endividamento das famílias brasileiras chegou a 80,9% em abril, o maior índice da série histórica. Já a inadimplência — quando as contas deixam de ser pagas em dia — permanece próxima de 30% das famílias.

O cenário chama atenção porque acontece justamente em um momento em que indicadores econômicos mostram melhora. O desemprego caiu para um dos menores níveis da história recente, enquanto o rendimento médio do trabalhador brasileiro ultrapassou R$ 3,7 mil mensais. Ainda assim, o dinheiro parece desaparecer rapidamente da conta dos brasileiros.

A explicação está principalmente no aumento do custo de vida. Embora muita gente esteja empregada, uma parcela cada vez maior da renda está sendo consumida por despesas básicas como alimentação, aluguel, transporte, energia, saúde e dívidas antigas.

Nos últimos anos, os brasileiros também enfrentaram fortes aumentos nos preços dos alimentos. Itens essenciais como arroz, feijão, leite, carnes, frutas e hortaliças registraram altas expressivas. Em muitos casos, os preços cresceram muito acima da inflação oficial do país.

Além disso, o peso dos juros continua sufocando quem depende de cartão de crédito, empréstimos ou financiamentos. Atualmente, a taxa básica de juros do Brasil está entre as mais altas do mundo, o que encarece praticamente todas as formas de crédito usadas pelas famílias.

Na prática, isso significa que muitas pessoas trabalham mais, recebem mais, mas continuam sem conseguir construir uma folga financeira. O salário acaba sendo absorvido por contas acumuladas e despesas essenciais.

Especialistas também apontam que o comportamento financeiro da população influencia diretamente esse cenário. O uso frequente do cartão de crédito, compras parceladas e empréstimos rápidos via aplicativos se tornaram parte da rotina de milhões de brasileiros.

Muita gente acaba olhando apenas se “a parcela cabe no bolso”, sem calcular o custo total da dívida. Pequenos parcelamentos aparentemente inofensivos vão se acumulando silenciosamente até comprometer boa parte da renda mensal.

Outro fator que preocupa economistas é a chamada “normalização do endividamento”. Como estar endividado se tornou algo comum, muitas pessoas deixam de enxergar a gravidade da situação e passam a conviver com dívidas como se fossem parte permanente da vida financeira.

As redes sociais também têm impacto nesse comportamento. O incentivo ao consumo constante, aliado à facilidade de crédito digital, cria um ambiente onde gastar se torna rápido, impulsivo e emocional.

Especialistas afirmam que renegociar dívidas pode trazer alívio imediato, mas não resolve sozinho o problema estrutural. Sem mudanças nos hábitos financeiros, muitas famílias acabam voltando ao endividamento pouco tempo depois.

A orientação é que o consumidor acompanhe os próprios gastos com mais atenção, evite parcelamentos excessivos, tenha cuidado com empréstimos fáceis e tente criar uma reserva financeira, mesmo pequena. Entender para onde o dinheiro está indo passou a ser uma necessidade cada vez mais urgente para milhões de brasileiros.

Enquanto o país tenta equilibrar crescimento econômico, inflação e juros altos, o desafio das famílias continua sendo transformar renda em qualidade de vida — algo que, para muitos, ainda parece distante.

Crédito: g1, CNC, IBGE e especialistas em economia financeira
Adaptação: Redação Rádio Centro