A nova prisão preventiva da influenciadora digital e advogada Deolane Bezerra colocou novamente o nome da empresária no centro de uma das investigações mais complexas envolvendo lavagem de dinheiro e crime organizado no Brasil nos últimos anos.

Segundo informações reveladas pelo programa Fantástico, da TV Globo, autoridades brasileiras chegaram a monitorar a rotina de Deolane durante uma viagem de luxo à Itália, com apoio da Interpol, antes da operação policial que culminou em sua prisão no estado de São Paulo.

📸 Imagem: Reprodução via instagram

A investigação conduzida pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo aponta suspeitas de que a influenciadora teria sido utilizada como peça importante em um esquema de movimentação e ocultação de dinheiro atribuído ao Primeiro Comando da Capital (PCC), principal facção criminosa do país.

A defesa de Deolane nega qualquer envolvimento com organizações criminosas e afirma que todos os valores recebidos por ela possuem origem lícita e devidamente declarada.

Monitoramento internacional

De acordo com as investigações, Deolane passou mais de 20 dias em Roma, na Itália, hospedada em uma região considerada uma das mais luxuosas da capital italiana, próxima à tradicional Piazza di Spagna.

Enquanto publicava vídeos, fotos e registros da viagem nas redes sociais, autoridades brasileiras acompanhavam discretamente seus deslocamentos no exterior.

Segundo a reportagem do Fantástico, a Interpol teria auxiliado no monitoramento internacional da influenciadora. Investigadores chegaram inclusive a discutir a possibilidade de uma prisão ainda em território italiano.

No entanto, Deolane retornou ao Brasil pouco antes da deflagração da operação policial e acabou sendo presa em um condomínio de luxo em Barueri, na Grande São Paulo.

Após a prisão, ela foi transferida para o presídio feminino de Tupi Paulista, no interior de São Paulo.

O que a polícia investiga

Segundo o Ministério Público e a Polícia Civil, a investigação aponta suspeitas de lavagem de dinheiro, associação ao tráfico de drogas e participação em organização criminosa.

Os investigadores afirmam que pessoas com grande alcance nas redes sociais passaram a ser utilizadas pelo crime organizado como forma de “dar aparência legal” a recursos ilícitos.

Para os promotores do caso, influenciadores e empresas ligadas ao universo digital seriam usados para pulverizar movimentações financeiras, dificultando o rastreamento do dinheiro.

Relatórios financeiros apontam que cerca de R$ 13,6 milhões circularam pelas contas pessoais de Deolane entre 2018 e 2022. Outros R$ 14 milhões teriam passado por empresas registradas em nome dela.

A polícia afirma que boa parte dessas movimentações chamou atenção pela ausência de comprovação considerada compatível com contratos publicitários ou atividades empresariais identificadas durante a quebra de sigilo bancário.

Empresas de fachada e cidades próximas a presídios

Outro ponto que ganhou força nas investigações envolve empresas registradas em nome de Deolane em cidades do interior paulista próximas ao complexo penitenciário de Presidente Venceslau, onde estão presos integrantes históricos do PCC.

Segundo os investigadores, algumas dessas empresas funcionariam em endereços compartilhados com dezenas de outras firmas consideradas suspeitas ou sem atividade econômica efetiva.

Para a polícia, o modelo é semelhante ao utilizado em esquemas clássicos de lavagem de dinheiro: criação de empresas com baixa atividade real para justificar movimentações milionárias.

A origem da investigação

O caso atual é resultado de uma investigação iniciada ainda em 2019.

Na época, autoridades encontraram bilhetes manuscritos dentro de uma cela no presídio de Presidente Venceslau. As mensagens continham supostas ordens atribuídas a integrantes da cúpula da facção criminosa.

As pistas levaram investigadores a uma transportadora suspeita de atuar na lavagem de dinheiro ligada ao tráfico internacional de drogas.

Em operações posteriores, celulares apreendidos com investigados revelaram mensagens consideradas estratégicas para o avanço do caso.

Segundo a polícia, diálogos encontrados nos aparelhos mostrariam contatos diretos entre operadores financeiros do esquema e familiares ligados à cúpula da organização criminosa.

As investigações também apontam a atuação de supostos “laranjas” utilizados para movimentar recursos da facção sem despertar suspeitas imediatas.

Defesa nega irregularidades

A defesa de Deolane Bezerra afirma que a influenciadora jamais teve relação com a transportadora investigada ou com integrantes do PCC.

Em audiência de custódia, Deolane declarou que os valores recebidos eram provenientes de atividades profissionais legítimas, principalmente da época em que atuava como advogada criminalista.

Os advogados também afirmam que não existem provas concretas ligando a influenciadora diretamente à facção criminosa.

Defesas de outros investigados citados na operação também contestam as acusações e afirmam que irão demonstrar inocência ao longo do processo.

Caso provoca enorme repercussão

A prisão de Deolane gerou enorme repercussão nas redes sociais, no meio jurídico e no universo dos influenciadores digitais.

Nos últimos anos, a empresária construiu uma das maiores presenças digitais do país, acumulando milhões de seguidores, contratos publicitários milionários e forte exposição pública ligada ao estilo de vida de luxo.

Para especialistas ouvidos por veículos nacionais, o caso também acende um alerta sobre o uso de empresas digitais, marketing de influência e movimentações financeiras virtuais em esquemas modernos de lavagem de dinheiro.

A investigação segue em andamento e novas fases da operação não estão descartadas pelas autoridades.

Créditos: G1, Fantástico, TV Globo e Ministério Público de São Paulo
Adaptação: Rádio Centro Cajazeiras