A aprovação da primeira versão nacional da semaglutida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) marca oficialmente o início de uma nova fase no mercado farmacêico brasileiro — e reacende uma das maiores discussões de saúde da atualidade: afinal, as chamadas “canetas emagrecedoras” representam uma revolução médica ou um risco crescente de uso indiscriminado?

O medicamento aprovado se chama Ozivy, produzido pela farmacêutica brasileira EMS, e utiliza o mesmo princípio ativo presente no Ozempic e no Wegovy: a semaglutida.

A autorização da Anvisa acontece poucos meses após o fim da patente da Novo Nordisk no Brasil, abrindo espaço para uma corrida bilionária entre laboratórios interessados em disputar um dos mercados mais lucrativos do mundo atualmente.

O anúncio rapidamente repercutiu entre médicos, pacientes, especialistas em obesidade e usuários das redes sociais, já que a expectativa é de que a chegada de concorrentes nacionais possa reduzir os preços desses medicamentos nos próximos anos.

Hoje, dependendo da dose e da cidade, tratamentos com semaglutida podem ultrapassar facilmente milhares de reais por mês.

O Ozivy foi aprovado como um medicamento “novo” por desenvolvimento abreviado — modalidade regulatória usada para substâncias já conhecidas, mas que ainda precisam comprovar qualidade, segurança e eficácia perante a agência sanitária brasileira.

Segundo a própria Anvisa, o medicamento passou por uma longa análise técnica envolvendo controle de impurezas, estabilidade molecular, imunogenicidade e eficácia clínica.

A agência destacou que os análogos sintéticos da semaglutida representam um enorme desafio regulatório devido à complexidade da molécula.

O que muda agora no mercado brasileiro

Até março deste ano, a Novo Nordisk dominava praticamente sozinha o mercado da semaglutida no Brasil.

Com a quebra da patente, laboratórios brasileiros e internacionais iniciaram uma verdadeira corrida para lançar novos produtos semelhantes.

Segundo levantamento divulgado anteriormente pela própria Anvisa, pelo menos oito pedidos envolvendo semaglutida já estavam em análise no país, além de outros processos aguardando avaliação técnica.

A expectativa é que a concorrência aumente significativamente o acesso ao tratamento tanto para diabetes tipo 2 quanto para obesidade.

Especialistas acreditam que os preços devem cair gradualmente conforme mais empresas consigam aprovação regulatória.

Ainda assim, médicos alertam que a popularização das “canetas emagrecedoras” também traz novos desafios.

A explosão das “canetas emagrecedoras”

Nos últimos anos, medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro deixaram de ser apenas remédios para diabetes e passaram a ocupar espaço nas redes sociais, no universo das celebridades e até em discussões sobre padrões estéticos.

A semaglutida atua imitando um hormônio chamado GLP-1, responsável por aumentar a sensação de saciedade, reduzir o apetite e melhorar o controle da glicose.

Os resultados impressionaram médicos e pacientes.

Muitos usuários passaram a perder grandes quantidades de peso em poucos meses, transformando o medicamento em um fenômeno mundial.

Além da obesidade, estudos recentes também passaram a investigar possíveis benefícios cardiovasculares da substância.

Neste ano, a própria Anvisa ampliou indicações da semaglutida para redução de riscos cardiovasculares em pacientes obesos ou com sobrepeso e doenças cardíacas.

Mas junto com os benefícios veio uma onda crescente de polêmicas.

O lado preocupante das canetas

Especialistas em endocrinologia vêm alertando há meses sobre o uso indiscriminado dessas substâncias sem acompanhamento médico.

A principal preocupação envolve pessoas que utilizam o medicamento apenas por motivos estéticos, sem indicação clínica adequada.

Entre os efeitos colaterais mais conhecidos estão:

— náuseas
— vômitos
— diarreia
— constipação intestinal
— dores abdominais
— refluxo
— fadiga intensa

Pesquisas recentes também começaram a apontar possíveis efeitos ainda pouco compreendidos.

Um estudo internacional analisando milhares de relatos de usuários identificou sintomas como alterações menstruais, ondas de calor, calafrios e cansaço persistente em parte dos pacientes.

Outra preocupação crescente é o chamado “efeito rebote”.

Médicos relatam que muitos pacientes recuperam rapidamente parte do peso perdido após interromperem o uso do medicamento sem mudança consistente de hábitos alimentares e prática de atividade física.

Além disso, pesquisadores também descobriram que a resposta ao tratamento pode variar bastante entre diferentes pessoas.

Estudos recentes sugerem inclusive que fatores genéticos podem influenciar diretamente tanto a eficácia quanto os efeitos adversos das drogas à base de GLP-1.

Mercado bilionário e pressão estética

A popularização dessas medicações também abriu uma enorme discussão ética.

Críticos afirmam que o uso excessivo para fins puramente estéticos pode gerar banalização de um tratamento originalmente criado para doenças metabólicas graves.

Em diversos países, houve períodos de desabastecimento de Ozempic justamente porque pessoas sem diabetes passaram a usar o medicamento para emagrecimento rápido.

No Brasil, a situação também provocou preocupação entre endocrinologistas.

Outro ponto de alerta envolve a venda irregular, falsificações e manipulação clandestina dessas substâncias.

A própria Anvisa já precisou negar registros de alguns produtos à base de semaglutida e liraglutida por falhas técnicas e ausência de comprovação adequada de segurança e eficácia.

Enquanto isso, o mercado segue aquecido.

Analistas internacionais estimam que os medicamentos da classe GLP-1 podem movimentar centenas de bilhões de dólares globalmente nos próximos anos.

Quando o Ozivy chega às farmácias?

Apesar da aprovação oficial da Anvisa, o Ozivy ainda não possui data confirmada para chegar às farmácias.

A EMS ainda precisa concluir etapas comerciais, produção em escala industrial, distribuição e definição do preço junto à Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED).

Mesmo assim, a autorização já é considerada um marco importante para o setor farmacêutico nacional.

Agora, o Brasil entra oficialmente na disputa de um dos mercados mais explosivos e controversos da medicina moderna — um setor que mistura ciência, emagrecimento, estética, saúde pública e bilhões de reais.

Créditos: G1, Anvisa, UOL, Reuters, Mayo Clinic, Washington Post e outras fontes consultadas
Adaptação: Rádio Centro Cajazeiras