Valério Arcary explica que pesquisas são confiáveis, mas cenário volúvel impossibilita cravar o resultado eleitoral 📸© José Cruz/Agência Brasil

Instrumento para construção de narrativas para alguns, simples ferramentas de informação para tantos outros, as pesquisas eleitorais, vez ou outra, ocupam lugares de questionamentos. O fato é que elas não adivinham o futuro, mas indicam tendências.

Recentemente, o senador Flávio Bolsonaro conseguiu no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a suspensão de uma pesquisa que indicava o derretimento de sua candidatura após a revelação de suas relações com o banqueiro Daniel Vorcaro.

O papel desses levantamentos em períodos eleitorais é justamente o tema do episódio desta terça-feira (16) do videocast Três por Quatro, apresentado por Igor Carvalho, e que recebe o historiador e comentarista do programa, Valério Arcary.

Arcary considera as pesquisas eleitorais confiáveis e as define como um recurso técnico que indica tendências de evolução das opiniões da sociedade. “Isso não significa que não há margem de erro. E há que se considerar que as sociedades se transformam. A capacidade dos censos, ou seja, das investigações feitas pelo IBGE — que, repito, é uma fonte séria de informação — acaba por não captar todas as transformações, inclusive algumas que eu chamaria de moleculares. A nossa atual sociedade não é a mesma de 20 anos atrás. Assim como houve em outros momentos rupturas geracionais, como foi na virada dos anos 1960 para 1970, assim como a virada do século 21. Nem sempre as pesquisas estão na sintonia fina, capturando todas essas mudanças que têm dimensões atomizadas”, avalia.

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Por essa razão, continua o historiador, é fundamental fazer uma análise da série do conjunto de pesquisas. “Vai mostrar as tendências e contra-tendências, os fluxos e refluxos”, aponta.

A última pesquisa Genial/Quaest mostra vantagem de Lula em relação aos outros presidenciáveis. Outra pesquisa, da Atlas/Intel, divulgada em junho, também mostrava um cenário semelhante, mas foi questionada pela campanha de Flávio porque a última das perguntas dizia respeito ao envolvimento do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro com Vorcaro.

“Não considero que a gente consiga ter com muita antecedência no Brasil alguma segurança sobre as dinâmicas que vão ficar cada vez mais intensas e agudas”, analisa Arcary. “Vamos recordar que mais ou menos metade da população não acompanha o noticiário político. Nós estamos em uma quarta conjuntura em um ano e meio. Isso não é pouco”, destaca. “No primeiro semestre do ano passado, era crescente a taxa de desaprovação do governo Lula, era clara uma ofensiva de toda a oposição, e o governo estava em uma defensiva. Isso modificou em julho. Pesou o ataque de Trump em uma superagressão tarifária, teve as trapalhadas do bolsonarismo e dos aliados no Congresso Nacional numa campanha pela anistia de Bolsonaro às vésperas do julgamento que condenou Bolsonaro e quatro generais de quatro estrelas à prisão por golpismo. De julho a dezembro, o governo Lula pode se apoiar em grandes momentos de mobilização popular em grandes centros urbanos”, enumera Valério Arcary.

Arcary lembra que, naquele momento, o ex-presidente lança seu filho mais velho como pré-candidato à presidência e implode a construção da candidatura do governador paulista Tarcísio de Freitas. Ganha tração a esse plano, inclusive alcançando vantagem diante de Lula. Contudo, esse projeto encontra obstáculos após o envolvimento de toda a família Bolsonaro com o Banco Master.

“Ainda é cedo [para definir qualquer resultado]. Na análise, a gente não pode deixar que os nossos desejos contaminem a informação. Nós temos que deixar a informação falar por si própria. Porque só com uma análise o mais objetiva é que é possível definir táticas com as quais é possível vencer a batalha”, pondera.

As informações são de Igor Carvalho e Maria Teresa Cruz, do Brasil de Fato

|📸© Fernando Frazão/Agência Brasil