|🤳 Misoginia entre jovens cresce extremamente nas redes e expõe urgência de diálogo e prevenção


A explosão de conteúdos misóginos nas redes sociais tem acendido um alerta entre especialistas, educadores e famílias. Dados da SaferNet Brasil mostram que as denúncias de discursos de ódio contra mulheres cresceram 224% em 2025 em relação ao ano anterior, evidenciando a dimensão de um problema que ultrapassa o ambiente digital.
Para a professora Leila Tardivo, do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da USP, as plataformas digitais não são a origem do problema, mas funcionam como amplificadoras de comportamentos e valores já presentes na sociedade. “As redes sociais acabam sendo o nosso foco, mas elas refletem uma tendência e a amplificam. O grande problema não está em combater as redes sociais. É preciso pensar e ver junto com os próprios adolescentes o que podemos fazer”, afirma.
Segundo a especialista, a misoginia é alimentada por contextos em que a mulher é desvalorizada e a chamada masculinidade tóxica é associada a poder e identidade. O fenômeno ganha força especialmente durante a adolescência, período marcado pela construção da identidade e pela influência de grupos sociais e conteúdos consumidos na internet. “Estudando essa realidade, a gente observa que começa antes. Em ambientes onde a mulher é desvalorizada e a masculinidade agressiva é estimulada a misoginia aumenta muito”, explica.
Recentemente, o TikTok tornou-se alvo de investigação devido à disseminação da chamada trend Caso Ela Diga Não, na qual jovens simulavam agressões contra mulheres após uma suposta rejeição amorosa. Para Leila, episódios como esses revelam a necessidade de ações preventivas e educativas.
Escuta e acolhimento são fundamentais
A especialista destaca que muitos adolescentes recorrem à internet para lidar com frustrações, solidão e conflitos emocionais, mas alerta que o ambiente digital nem sempre oferece o suporte adequado. “Talvez porque não haja espaço para debater esse tipo de questão. Eles querem falar. A pergunta é: com quem eles podem conversar sobre essas frustrações, conflitos e desilusões?”, questiona.
Ela ressalta que abordagens baseadas apenas em críticas ou julgamentos tendem a afastar os jovens. Em vez disso, defende a criação de espaços de escuta nas escolas, nas famílias e nos serviços de saúde. “Se chegar para criticar ou julgar, não tem conversa. É preciso pedir ajuda a eles. Dizer: ‘Quero conversar com vocês, me expliquem’.”
A professora relata experiências em escolas nas quais os próprios adolescentes ajudaram adultos a compreender linguagens e códigos usados nas redes sociais. Segundo ela, esse tipo de aproximação fortalece a confiança e amplia a capacidade de identificar situações de risco.
Controle do conteúdo é mais importante que o tempo de tela
Embora reconheça a importância de limitar o uso excessivo de dispositivos, Leila afirma que o principal desafio está na qualidade do conteúdo consumido pelos jovens. “O problema não é apenas o tempo. O problema é o conteúdo”, enfatiza.
Ela cita recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e defende que crianças e adolescentes utilizem telas em ambientes compartilhados da casa, favorecendo a supervisão e o diálogo. “Por que deixar completamente sozinho na internet? Eu não quero apenas controlar. Quero conhecer, entender o que está acontecendo com você.”
A especialista avalia positivamente medidas adotadas por alguns países para restringir o acesso de menores às redes sociais, mas acredita que a solução não passa apenas pela proibição. “Não é culpa de ninguém. É responsabilidade de todo mundo. E deles também. Nada sobre nós sem nós. Vamos conversar junto.”
Comunidade pode ajudar a combater a solidão
Entre os sinais de alerta, Leila destaca o isolamento social, a falta de vínculos presenciais e a ausência de espaços de convivência. Para ela, combater a solidão é uma das principais estratégias para prevenir comportamentos violentos e problemas de saúde mental. “Alguém precisa chorar com eles. O menino triste precisa ter com quem falar.”
A professora também chama atenção para as dificuldades enfrentadas por famílias sobrecarregadas pela rotina de trabalho e defende o fortalecimento de redes de apoio comunitárias. “Se essa mãe está tão sozinha, será que os vizinhos não podem ajudar? Buscar ajuda, conversar e achar uma solução conjunta.”
Resgatar brincadeiras, atividades presenciais, jogos de tabuleiro e momentos de convivência familiar são algumas das alternativas sugeridas por ela para reduzir a dependência das telas e fortalecer os vínculos afetivos. Leila reforça, ainda, que o enfrentamento da misoginia e da violência digital exige mobilização coletiva. “A gente junto faz força. Podemos desenvolver a solidariedade e fazer com que esses meninos não se sintam tão sozinhos. E os pais também não.”
As informações são de Marcia Avanza, do Jornal da USP
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