|🐝 Aumento de 65% nos registros de espécies revela transformação na biodiversidade brasileira


Entre os anos de 2022 e 2025, o número de ocorrências de espécies no Brasil subiu 65,49%, atingindo 37,5 milhões. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou o número a partir da Avaliação dos Dados sobre a Biodiversidade Brasileira de 2025 e do Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr). Mariana Cabral de Oliveira, professora do Departamento de Botânica do Instituto de Biociências da USP, explica os principais fatores que levaram ao crescimento das ocorrências de espécies na fauna e na flora brasileira.
“O aumento no número de registros de espécies, do jeito que foi colocado pelo IBGE, faz parecer que o número do conhecimento de espécies novas teria aumentado, mas não é disso que se trata. Dentro desses registros, você pode ter a mesma espécie sendo anotada várias vezes. Eu considero bastante significativo esse aumento, significa que estamos melhorando nossa capacidade de registrar a evolução dessas espécies. Uma das fontes de dados do SiBBr é o projeto Ciência Cidadã, em que as pessoas podem se organizar para registrar diferentes espécies da natureza no Brasil em forma digitalizada, é um aplicativo que você baixa no celular e quando você encontra uma flor, uma abelha, uma árvore ou outra espécie que você ache interessante, você pode fotografar e fazer um registro local mesmo que você seja um amador e então esse aplicativo manda esses dados para o SiBBr.”
Luís Fábio Silveira, diretor do Museu de Zoologia da USP, explica que esse registro do IBGE dos dados coletados pela população traz diversos benefícios à preservação da natureza. “Há mais pessoas interessadas na observação da natureza, isso é um fato. Essas pessoas que são, muitas vezes, não especialistas, mas que têm um bom conhecimento sobre a identificação das espécies e têm a própria observação da vida silvestre como um hobby ou hábito, acabam respondendo por uma parcela significativa, porque são pessoas que durante o seu tempo livre estão registrando as espécies. O registro que o IBGE faz retrata bem este momento que a gente está vivendo, onde a gente tem uma série de pessoas bastante interessadas na observação da vida silvestre, o que é muito importante e é muito benéfico para a conservação.”
Como novas espécies são catalogadas
Silveira comenta os métodos utilizados por especialistas para identificar e catalogar novas espécies de fauna e flora. “Tudo reside principalmente no trabalho de campo: os pesquisadores vão nas áreas e coletam os espécimes para serem estudados nas coleções científicas, especialmente nos museus ou em outros tipos de coleções científicas. Antigamente, a gente usava só as comparações morfológicas e de tamanho, mas hoje em dia o achado e a descrição de novas espécies estão muito mais sofisticados, porque você também usa dados genéticos, dados de vocalização e dados sobre preferências de hábitos que vão refinando o nosso conhecimento sobre a biodiversidade. É um estudo principalmente comparativo com o que a gente já conhece, à medida que você vai observando essas descontinuidades ou populações que são diferentes, você as descreve como novas espécies.”
Novos dados utilizados a favor da preservação
Mariana ressalta que a catalogação das espécies e sua distribuição na biodiversidade são importantes para garantir uma preservação efetiva. “A organização e a sistematização desses dados são extremamente importantes, os pesquisadores estão cada vez mais entendendo a importância de depositar seus dados em bancos digitalizados. Se você não souber que espécies ocorrem em um determinado ambiente, a gente não consegue definir quais espécies ocorrem, onde elas ocorrem, qual sua frequência pelo ponto de vista espacial quanto temporal, nem definir áreas que seriam prioritárias para a conservação. Para a gente poder ter conservação de forma efetiva, precisa entender como a biodiversidade está distribuída, senão você corre o risco de proteger uma área que não é significativa e deixar uma outra área que é extremamente relevante de fora de uma proteção efetiva.”
Silveira comenta que os dados coletados através da Ciência Cidadã muitas vezes são redundantes, mas ajudam a monitorar a biodiversidade de locais específicos. “Uma coisa importante desses novos dados é que, muitas vezes, eles são redundantes, as pessoas estão indo nos mesmos lugares e vendo os mesmos bichos, isso faz com que elas acabem, às vezes de forma não intencional, fazendo um monitoramento da biodiversidade, porque elas estão vendo os mesmos indivíduos nos mesmos lugares, demonstrando a permanência deles ali, ou então se esse bicho ou essa planta não estão sendo encontrados mais, elas também estão vendo a ausência. A gente acaba tendo um programa de monitoramento superimportante feito a um custo muito baixo e que não envolve necessariamente a participação dos especialistas”, finaliza.
Por Gabriel Albuquerque, sob supervisão de Paulo Capuzzo e Cinderela Caldeira, do Jornal da USP
|📸© Luís Moraes via Wikimedia Commons
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