Bets deixam de movimentar bilhões e Sebrae vê oportunidade para o dinheiro voltar ao comércio, aos serviços e às pequenas empresas 📸© IVANILDO CARVALHO/Rádio Centro Cajazeiras

A retirada das plataformas digitais de apostas de quota fixa do mercado brasileiro abre uma nova discussão sobre o destino do dinheiro que vinha sendo direcionado às chamadas bets. Para o Sebrae, a mudança pode representar uma oportunidade para micro e pequenas empresas, caso parte dos recursos volte a ser destinada ao consumo de bens e serviços.

Segundo a Agência Sebrae de Notícias, as bets movimentaram R$ 65 bilhões em apostas dos brasileiros em 2025. O presidente do Sebrae, Rodrigo Soares, avalia que a restrição às plataformas pode contribuir para recuperar o poder de compra das famílias e estimular setores como comércio e serviços.

É importante, porém, fazer uma distinção: não significa que os R$ 65 bilhões serão automaticamente transferidos para o comércio. O eventual retorno desse dinheiro à economia depende do comportamento das famílias, da renda disponível, do nível de endividamento e de onde os consumidores passarão a gastar os recursos.

Estudo da USP calcula impacto de até R$ 141 bilhões

Um dos principais números que dimensionam o impacto econômico das apostas vem de estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), ligado à Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP).

A pesquisa estima que as apostas reduziram o consumo e retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025, equivalente a aproximadamente 0,9% a 1,1% do PIB. Segundo os pesquisadores, a redução corresponde a algo entre 40% e 50% de todo o crescimento econômico registrado pelo país naquele ano.

O estudo também calcula que a menor atividade econômica poderia ter provocado uma perda de arrecadação entre R$ 31,1 bilhões e R$ 54,8 bilhões. Trata-se de uma estimativa acadêmica sobre os efeitos econômicos das apostas, e não de uma previsão de quanto será automaticamente recuperado após a proibição.

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Pequenos negócios podem sentir os efeitos

Mais de R$ 65 bilhões movimentados em apostas em 2025 entram no centro do debate sobre o futuro do varejo 📸© IVANILDO CARVALHO/Rádio Centro Cajazeiras

Na avaliação do Sebrae, a mudança pode beneficiar especialmente empresas que dependem diretamente do consumo cotidiano da população.

Padarias, açougues, mercadinhos, restaurantes, salões de beleza, oficinas, lojas e outros pequenos estabelecimentos podem ser beneficiados caso uma parcela dos recursos que anteriormente era destinada às apostas seja redirecionada para produtos e serviços.

O presidente do Sebrae defende que esse processo pode gerar um efeito multiplicador na economia, com aumento das vendas, maior circulação de renda e possível estímulo à geração de empregos.

A entidade, entretanto, ressalta que os empresários precisarão estar preparados para aproveitar eventual aumento da demanda, com gestão eficiente, melhoria de processos, planejamento e conhecimento do mercado.

Pix registrou queda após anúncio da proibição

Outro dado que chamou atenção foi o comportamento das transações financeiras depois da publicação da medida provisória que proibiu as apostas de quota fixa.

Segundo o Ministério da Justiça, com base em dados do Banco Central, houve queda de aproximadamente 10% nas transações realizadas via Pix nos dias seguintes à publicação da medida.

O dado mostra uma mudança imediata no fluxo financeiro associado ao setor, embora não permita concluir, sozinho, que o mesmo volume tenha migrado para o comércio ou para outros segmentos da economia.

O que determina a medida provisória

A Medida Provisória nº 1.394, de 25 de setembro de 2026, proibiu em território nacional a exploração, oferta, intermediação e publicidade das loterias de apostas de quota fixa. O Ministério da Fazenda informa que a medida alcança as modalidades que estavam autorizadas pelo marco regulatório anterior.

O governo estabeleceu que os sites e aplicativos de apostas sejam bloqueados a partir da zero hora de 6 de outubro. Também foram estabelecidos procedimentos para identificação e devolução dos saldos individualizados dos apostadores, com previsão de processamento das devoluções pelas instituições financeiras entre 9 e 14 de outubro.

A situação jurídica e legislativa da medida ainda é relevante para a evolução do cenário, já que uma medida provisória precisa seguir o processo constitucional de apreciação pelo Congresso.

Impacto também chega à saúde pública

O impacto financeiro anual dos problemas de saúde associados às apostas para o SUS foi estimado em R$ 30,6 bilhões 📸© IVANILDO CARVALHO/Rádio Centro Cajazeiras

Além da dimensão econômica, estudos recentes apontam custos relacionados aos transtornos associados às apostas.

Segundo levantamento do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), divulgado pela Agência Brasil, o impacto financeiro anual dos problemas de saúde associados às apostas para o SUS foi estimado em R$ 30,6 bilhões. O estudo também registra aumento de 140% na busca por atendimento no SUS relacionado à dependência de apostas e jogos de azar nos cinco anos analisados.

O debate, portanto, envolve não apenas quanto dinheiro as apostas movimentam, mas também quanto deixam de circular em outras áreas da economia e quais custos sociais podem resultar do comportamento problemático relacionado ao jogo.

Bilhões em disputa pelo destino do consumo

Com a saída das plataformas de apostas do mercado formal, o principal ponto de interrogação passa a ser para onde irá o dinheiro que antes era destinado às bets.

O Sebrae trabalha com a perspectiva de que parte desses recursos possa retornar ao consumo de produtos e serviços, fortalecendo os pequenos negócios. Já o estudo da USP oferece uma dimensão mais ampla do impacto econômico estimado das apostas, calculando que até R$ 141 bilhões deixaram de movimentar outras atividades da economia em 2025.

Assim, o eventual ganho para o comércio não deve ser tratado como uma transferência automática dos valores apostados, mas como uma possibilidade de redistribuição do orçamento das famílias, dependendo de suas decisões de consumo e das condições econômicas.

O cenário coloca micro e pequenas empresas diante de uma possível mudança no comportamento dos consumidores e reforça, segundo o Sebrae, a necessidade de preparação para transformar eventual aumento da demanda em crescimento sustentável.

|📸© IVANILDO CARVALHO/Rádio Centro Cajazeiras

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