A enteropatia crônica em gatos é uma doença gastrointestinal caracterizada por sinais clínicos persistentes, como vômito e diarreia, por mais de três semanas 📸© Franco Monsalvo/Pexels

Uma dieta formulada para gatos com problemas gastrointestinais também foi efetiva em reduzir os sintomas de parte dos animais com enteropatia crônica, inflamação persistente do trato gastrointestinal. No entanto, a melhora não esteve associada à capacidade de digestão dos nutrientes como se acreditava. Esse é o principal resultado de uma pesquisa da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP, que comparou o aproveitamento de nutrientes entre animais doentes e saudáveis.

A enteropatia crônica é uma condição inflamatória do sistema gastrointestinal e pode provocar vômitos e diarreia por mais de três semanas. De acordo com Erika Pereira, doutoranda da FMVZ e autora da pesquisa, o diagnóstico é realizado após a exclusão de outras causas, como parasitoses, infecções e alterações metabólicas.

Na pesquisa, a equipe investigou se a doença alteraria a digestibilidade dos alimentos e a absorção dos nutrientes em gatos. Entre os animais com enteropatia crônica avaliados clinicamente, 57% responderam à intervenção alimentar, com redução dos episódios de vômito.

De acordo com Erika, esse resultado reforça que a maior parte dos gatos doentes respondem positivamente apenas com a mudança dieta, sem a necessidade de medicação, reforçando a importância da nutrição no tratamento da doença.

“O achado mais importante da pesquisa foi a ausência de diferenças na digestibilidade entre gatos doentes e saudáveis”, afirma Fábio Alves Teixeira, docente da FMVZ e orientador da pesquisa.

No ensaio de digestibilidade, realizado com 12 gatos com enteropatia crônica e quatro saudáveis, não foram observadas diferenças na capacidade de digestão dos alimentos entre os grupos. “Os resultados indicam que a resposta clínica à dieta não depende apenas de sua alta digestibilidade, que é algo muito citado na literatura como justificativa para os animais melhorarem só com a troca da alimentação” relata Erika Pereira.

Mudança na dieta

Para investigar a relação entre a doença e os nutrientes absorvidos, os pesquisadores dividiram os felinos em três grupos: gatos com enteropatia crônica responsiva à dieta, animais com enteropatia crônica não responsiva à dieta, e gatos saudáveis. Todos receberam uma dieta seca formulada para auxiliar a saúde gastrointestinal.

O alimento utilizado na pesquisa é formulado com uma mistura de fibras solúveis e insolúveis que, segundo Erika Pereira, podem contribuir para melhorar a consistência das fezes, o trânsito intestinal e a microbiota. “O alimento também contém prebióticos e apresenta alta digestibilidade, o que facilita a absorção dos nutrientes por animais que apresentam inflamação intestinal e podem ter essas funções comprometidas” , explica.

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Após o período de adaptação de 45 dias, os pesquisadores acrescentaram óxido de cromo à alimentação, um marcador que permite estimar, a partir da análise de fezes, a quantidade de nutrientes efetivamente aproveitada pelo organismo. Os resultados mostraram que os gatos com enteropatia crônica não apresentavam uma perda evidente na capacidade de aproveitar os nutrientes do alimento.

Além da melhora dos sintomas, a dieta também trouxe mudanças no perfil nutricional dos gatos. Após 60 dias de intervenção, os animais com enteropatia crônica apresentaram aumento nos níveis de metabólitos, substâncias relacionadas ao processamento da vitamina D no organismo. “A mudança da dieta do animal para um alimento com um perfil gastrointestinal vai melhorar a concentração de algumas vitaminas”, diz FábioTeixeira.

Esses parâmetros também tiveram relação com melhora dos níveis de albumina no sangue, uma proteína que pode ajudar a indicar o estado nutricional do animal. “Essa relação sugere uma possível interação entre a inflamação, o metabolismo da vitamina D e a melhora da absorção dessa vitamina”, acrescenta a autora.

Nem todo gato

O estudo mostra que a resposta ao tratamento nutricional pode variar entre os animais. “Há pacientes que respondem a um perfil e pacientes que respondem a outro”, afirma Erika. Os gatos que não melhoraram com a dieta gastrointestinal passaram, em uma segunda etapa da pesquisa, por uma intervenção com alimento hipoalergênico. A maior parte deles respondeu bem a essa segunda formulação.

A dieta hipoalergênica utiliza proteínas hidrolisadas, que passam por um processo de quebra para reduzir o seu tamanho até que não sejam reconhecidas pelo sistema imunológico. “O paciente que tem alergia à proteína não tem reação a esse tipo de alimento”, diz a médica verterinária.

Para Fábio Teixeira, a principal contribuição do estudo está justamente em ampliar a atenção dada à alimentação como parte do cuidado. “O estudo traz uma relevância maior para as possibilidades estratégicas de tratamento nutricional para esses pacientes com enteropatia crônica”, afirma.

Atenção à saúde felina

Erika destaca a importância de tratar sintomas recorrentes. “Não é normal os gatos vomitarem. A partir do momento que você tem um gato que vomita, ele tem alguma coisa que precisa ser investigada”, alerta a autora. Vômitos frequentes, mesmo quando o gato elimina apenas pelos, líquido ou alimento mal digerido, podem ser sinais de enteropatia crônica. O mesmo vale para episódios recorrentes de fezes pastosas ou diarreia, que podem acontecer de forma contínua ou em intervalos.

A orientação é procurar avaliação veterinária para identificar a causa e iniciar o tratamento. Uma vez diagnosticado com enteropatia crônica, a primeira etapa do tratamento é a mudança alimentar. “Os gatos que não melhorarem vão seguir para uma investigação mais detalhada, normalmente com uma endoscopia, para entender que tipo de inflamação ou de alteração existe no intestino”, comenta o professor da FMVZ.

O professor aponta alguns cuidados que podem reduzir o risco de alterações intestinais, principalmente nos primeiros anos de vida, embora não exista uma forma de prevenção estabelecida. Entre eles estão um manejo nutricional adequado e de boa qualidade. Teixeira também recomenda evitar o uso de antibióticos sem indicação veterinária. “O uso indiscriminado de antibiótico vem sendo relacionado com mudança nesse ambiente intestinal”, afirma.

O número reduzido de animais avaliados na etapa de digestibilidade, sobretudo no grupo de gatos saudáveis, foi apontado como uma limitação do estudo. Em pesquisas futuras, os pesquisadores pretendem ampliar a amostragem e comparar diretamente as respostas às dietas gastrointestinal e hipoalergênica. A intenção é identificar quais características dos gatos estão associadas à melhora clínica e entender por que diferentes pacientes respondem de maneiras distintas ao tratamento nutricional.

A pesquisa foi desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Clínica Veterinária da FMVZ, com colaboração da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Jaboticabal. A autora recebeu bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). O trabalho recebeu apoio da Fundação de Desenvolvimento da Unesp (Funep) e financiamento da Premier Pet, que também forneceu os alimentos utilizados no estudo. A Bioclin forneceu os testes de Giardia utilizados na triagem dos animais e o laboratório Vetcheck realizou as análises das vitaminas lipossolúveis.

O grupo de pesquisa também está recrutando animais para novos estudos:

– gatos com vômito ou diarreia há mais de três semanas;

– gatos obesos;

– cães obesos;

– cães sem vesícula biliar;

– gatos sem vesícula biliar;

– gatos acima de 12 anos;

– gatos hipertireoideos;

– cães com vômito e/ou diarreia há mais de três semanas

– cães diabéticos;

– cães com shunt (desvio portassistemico);

– gatos com doença renal crônica;

– cães com hipotireoidismo;

– ⁠gatos com histórico de cálcio de urato

Tutores que tenham animais que se enquadrem nos estudos podem entrar em contato com o grupo de pesquisa por e-mail (fabioa14@hotmail.com) para obter mais informações sobre a participação.

As informações são de Amanda Yoshizaki e Fabiana Mariz, do Jornal da USP

|📸© Tom Fisk

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