|🏕 Moradores de rua encontram em barracas a ressignificação de casa e o senso de vizinhança


Apesar da vulnerabilidade, as barracas que abrigam pessoas em situação de rua nas áreas centrais da cidade de São Paulo proporcionam a seus ocupantes maior sensação de proteção, bem-estar e ideia de vizinhança. É o que aponta a pesquisa de mestrado da psicóloga Luiza Assumpção Alves intitulada Morar na rua: considerações sobre os espaços público e privado de casas e pessoas moradoras de rua. O objetivo do trabalho foi entender em que aspectos essas barracas utilizadas por pessoas em situação de rua se aproximam ou se distanciam de uma moradia convencional. Para realizar sua pesquisa, Luiza acompanhou, durante dois anos e meio, quatro moradores em situação de rua que viviam em três “casas”, como ela denomina as barracas. Eles estavam vivendo nessa condição havia pelo menos 12 meses.
A pesquisadora chama a atenção para o uso da palavra “casa” em sua pesquisa ao se referir às barracas de camping, lonas ou qualquer outra forma de estrutura usada pelos moradores em situação de rua. Isso ocorre, segundo ela, porque é dessa forma que seus habitantes se relacionam com o espaço público e com a vizinhança tradicional.
Em entrevista ao Jornal da USP, Luiza cita como exemplo a preocupação dos ocupantes em procurar ruas de pouca movimentação, e o cuidado com o espaço público ao ocupar minimamente as calçadas dessas vias. “Vou chamar de casa esse tipo de moradia, pois é assim que essas pessoas se relacionam com esse espaço. São denominadas casas também porque, apesar da vulnerabilidade, acabam sendo um reduto e oferecem proteção. Todas essas características aparecem ali nessas barracas”, declara.
O trabalho foi apresentado ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social, do Instituto de Psicologia (IP) da USP, sob orientação da professora Sandra Maria Patrício Ribeiro, do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho. Segundo a pesquisadora, seu interesse pela condição e vida de pessoas em situação de rua nasceu do convívio com essa realidade enquanto vizinha desses moradores na região central da cidade de São Paulo. “Eu faço uma pesquisa teórica sobre a população em situação de rua e suas moradias e também observo a relação delas com o espaço público. Outro ponto é observar a estrutura dessas casas, para entender por que algumas ocupam os espaços por mais tempo que outras”, diz a pesquisadora.

Relação com a vizinhança garante permanência
De acordo com Luiza, apenas um dos moradores em situação de rua, entre os que foram analisados na pesquisa, era mais arredio a conversas e vivia isolado, sem contato com “casas” próximas. Nas outras duas moradias observadas, o tempo que viviam no local, a proximidade com outras residências convencionais e a boa relação com a vizinhança fizeram com que conseguissem se manter no local, apesar das visitas da Prefeitura para efetuar a remoção. “Diferentemente do morador que vive mais isolado, os outros moradores em situação de rua mantêm uma relação mais duradoura com a vizinhança e conseguem permanecer no local. Os dois casos tiveram visitas da Prefeitura para remoção, mas por conta desse convívio com os vizinhos conseguiram permanecer nesses lugares”, conta Luiza.
Segundo a pesquisadora, à medida que os moradores em situação de rua se fixam em uma localidade, tornando-se familiares para os moradores das residências convencionais, estabelece-se, muitas vezes, uma relação de mais confiança. “A gente observa que as pessoas que moram nas residências convencionais e as que estão vivendo na rua, muitas vezes desenvolvem uma relação de cuidado de um para com o outro, que vai desde olhar o carro, varrer a calçada ou dar um bom dia”, salienta Luiza. Conforme a pesquisadora, o uso de barracas é uma estratégia recorrente para enfrentamento da situação de rua. No entanto, a sua consolidação e permanência é algo bastante raro, pois só ocorre por meio do bom relacionamento com vizinhos moradores de casas convencionais. “Além disso, no decorrer da análise dos casos, fica evidente que apesar do uso de barracas ser uma estratégia cada vez mais recorrente para o enfrentamento da situação de rua, a consolidação e permanência dessa “casa” ainda é algo bastante raro. Entretanto, em algumas situações, a moradia de rua tem similitudes e aproximações, ainda que simbólicas, com a moradia convencional”, afirma
Convivio marcado por ambiguidade
A pesquisadora salienta que, apesar da relação dos moradores de casas convencionais com a população que vive em barracas apresentar um convívio de mais confiança, ela é ambígua. Isso ocorre porque a vizinhança aceita os que fixam residência em barracas, mas não tolera pessoas em situação de rua que utilizam papelões para passar a noite. “É uma relação ambígua, pois a própria vizinhança não aceita pessoas dormindo em papelões sobre as calçadas e pede para que essas pessoas deixem o local. O próprio morador em situação de rua que já está estabelecido na região faz esse movimento de falar com com esses moradores, dizendo para essa outra população que não possui barraca que desse um jeito, eles precisam mudar”, finaliza.
Censo da População de rua 2021
No último censo da Prefeitura de São Paulo acerca da população de rua, realizado em 2021, foram contadas 31.884 pessoas sobrevivendo nessa condição, sendo que 40% delas frequentavam os centros de acolhida e 60% faziam uso dos espaços públicos para todas as atividades da vida, inclusive dormir. Em 2019, ano do censo anterior, havia pouco mais de 24 mil pessoas vivendo em situação de rua, o que representou um aumento de 31% entre as contagens.
Outro aumento significativo apontado na pesquisa de 2021 foi relacionado à quantidade de barracas e moradias improvisadas. Tais arranjos foram encontrados em 30,1% dos pontos onde as abordagens foram realizadas em 2019 frente a 54,5% dos pontos visitados em 2021. Em 2019, havia a presença de 2.051 pontos com barracas, frente a 6.778 em 2021, um aumento de 330%. Ou seja, embora o aumento da população em situação de rua já tenha sido expressivo, o aumento da população que se utiliza de barracas como estratégia de sobrevivência nas ruas foi bem maior.
Veja abaixo a reprodução do quadro estatístico da Prefeitura de São Paulo – Instagram

Com informações de Marcos Santos, do Jornal da USP
|📸© Antônio Cruz/Agência Brasil
Rádio Centro Cajazeiras
