|đ€ Tom ZĂ© celebra nove dĂ©cadas de vida como sĂmbolo de ousadia, irreverĂȘncia e inovação musical

A curiosidade parece guiar Tom ZĂ© pelo mundo: da leitura de Os SertĂ”es, de Euclides da Cunha, na adolescĂȘncia, ao ofĂcio de jardineiro no prĂ©dio onde mora em SĂŁo Paulo, o baiano mais paulistano que existe tem um talento nato para transformar o cotidiano em mĂșsica, como em âAviso aos Passageirosâ. A letra da canção reproduz a mensagem de segurança dos elevadores: âantes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar.â

Celebrado na exposição gratuita âTom ZĂ© – 90 anos do Inquieto Jardineiro de Sonsâ, na Caixa Cultural em SĂŁo Paulo, atĂ© o dia 13 de dezembro, o mĂșsico comenta o segredo para seguir compondo, criando e fazendo shows aos 90 anos.
âO seguinte: de manhĂŁ, se eu nĂŁo fizer as coisas orientais que eu aprendi aqui em SĂŁo Paulo e que prolongam a vida, a ginĂĄstica para o estĂŽmago, para cabeça, para intestino, para vista, para ouvido… Eu de manhĂŁ faço prĂĄticas que tĂȘm a ver com todos os funcionamentos humanos. E enquanto eu fizer isso, eu vou tĂĄ vivo aĂ, se Deus quiserâ.
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Tropicalismo
Nascido em 11 de outubro de 1936 em IrarĂĄ, no sertĂŁo da Bahia, AntĂŽnio JosĂ© Santana Martins passou em primeiro lugar no vestibular da Escola de MĂșsica em Salvador. Foi na capital baiana que conheceu Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria BethĂąnia e Gal Costa. Se juntou aos tropicalistas em SĂŁo Paulo e participou do disco âTropicĂĄlia ou Panis et Circencisâ de 68, mesmo ano em que lançou o disco de estreia âGrande Liquidaçãoâ, e venceu o 4Âș Festival de MĂșsica Popular Brasileira com a cançãoâSĂŁo, SĂŁo Pauloâ.
A cidade de SĂŁo Paulo se tornou tema recorrente em composiçÔes como âAugusta, AngĂ©lica e Consolaçãoâ e âA Briga do EdifĂcio ItĂĄlia com o Hilton Hotelâ. O trabalho do mĂșsico Ă© marcado pela experimentação, do som feito numa enceradeira quebrada ao âbuzinĂłrioâ – instrumento que conecta vĂĄrias buzinas e que pode ser visto pelo pĂșblico na exposição. A curadora da mostra, Neuseli Martins, fala sobre a figura inspiradora de Tom ZĂ©.
âEu acho que assim ele inspira pessoas dos 10 aos 100 nĂ©? E vendo ele em atividade criando gravando principalmente dialogando com vĂĄrias geraçÔes eu acho isso uma caracterĂstica muito incrĂvel dele. Ele Ă© uma pessoa que tĂĄ sempre buscando descobrir alguma coisa nova ou ver as coisas de uma forma diferente nĂ©?â
Experimental demais
Em meados dos anos 70, o mĂșsico se enveredou por mais experimentaçÔes, desconstruindo cançÔes criadas a partir de fragmentos musicais. Visto como experimental demais, Tom ZĂ© foi esquecido pela mĂdia atĂ© os anos 80. Foi redescoberto quando seu disco âEstudando o Sambaâ foi parar nas mĂŁos do mĂșsico David Byrne, ex-lĂder da banda Talking Heads, que lançou a obra do brasileiro no exterior. Com isso, voltaram as turnĂȘs e gravaçÔes nos anos 90. Jarbas Mariz, mĂșsico que gravou e tocou com Tom ZĂ© por 32 anos, comenta o que aprendeu com ele.
âPor exemplo, dinĂąmica na mĂșsica, nĂ©? Aquela coisa de de tan dan dan dan, tan dan dan dan, e vai lĂĄ pra baixo, vai lĂĄ na coisa da dinĂąmica na mĂșsica popular. […] Pegar qualquer instrumento, vocĂȘ transformar aquilo ali em som e colocar na sua mĂșsica, tambĂ©m aprendi isso com ele tambĂ©m. E aquele bandolim maluco que eu tocava com ele, que Ă© um que Ă© um bandolim percussivo, que foi ele que introduziu na minha cabeçaâ.
O Ășltimo ĂĄlbum de estĂșdio, âLĂngua Brasileiraâ, Ă© de 2022. Neste 9 de outubro, foi lançado o ĂĄlbum ao vivo de um show gravado no Sesc hĂĄ 30 anos. Em agosto, saiu a mĂșsica inĂ©dita âFuturo Frutoâ, uma parceria com Marcelo Segreto e Loretta, mĂșsicos de diferentes geraçÔes, provando que Tom ZĂ© ainda tem muito o que inventar na mĂșsica brasileira.
|đžÂ© Paulo Pinto/Agencia Brasil
RĂĄdio Centro Cajazeiras

