|🎬Candidato ao Oscar, Feito Pipa denuncia danos na saúde mental dos atingidos por barragens

Escolhido como representante do Brasil no Oscar, o filme “Feito Pipa”, do diretor Allan Deberton, aborda o impacto das tragédias com barragens na saúde mental das vítimas. A história utiliza a inundação de uma antiga cidade como pano de fundo simbólico para abordar a perda de memórias, o Alzheimer e os laços de proteção familiar.
O protagonista Gugu, interpretado por Yuri Gomes, vive no interior do Ceará, onde é criado pela avó, Batista. Quando a mulher, papel de Teca Pereira, é diagnosticada com Alzheimer, o menino teme ir morar com o pai violento, um homem machista representado por Lázaro Ramos.
“Eu acho que esse medo, ainda mais trazido pelo olhar de uma criança, que só quer ser ela mesma e quer rotina de carinho, de cuidado com a avó… Eu acho que é muito perturbador quando a gente se sente desprotegido dentro da nossa casa. E eu acho que a avó é a casa do Gugu”, comenta o diretor ao Conversa Bem Viver.
Natural de Russas, cidade do interior cearense, Deberton considera que a força do cinema brasileiro reside na pessoalidade. Para ele, “Feito Pipa” vem de um olhar pessoal. “Um lugar interno mesmo, que é trazido para as obras através do olhar dos roteiristas e também dos diretores, trazendo ali para a escrita, para a biografia desses personagens, um tanto de lugares conhecidos, que às vezes remontam dos lugares onde cruzamos, vivemos, nascemos, de períodos distintos, atuais, momentos de infância. E o roteiro do André Araújo tem esse lugar de um olhar muito delicado”, avalia.
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“André, assim como eu, nasceu no sertão e a gente percebia um lugar de não pertencimento, de famílias muito conservadoras. E, de certa forma, existe esse lugar de espanto nesse sentimento de pertencimento. André diz que Gugu não é a criança que ele é, mas a criança que ele gostaria de ter sido”, segue.
Allan Deberton conta que o roteirista foi atravessado pela questão das barragens durante uma viagem ao Rio Grande do Norte, na qual pôde testemunhar o impacto causado pelas estruturas na paisagem e na rotina das pessoas.
O cineasta explica que a barragem guarda um paradoxo: traz benefícios à população que, por exemplo, sofre impactos da seca. Contudo, os custos frequentemente são altos.
“O filme não tem a proposta de colocar uma crítica dura e firmada sobre as barragens, porque a gente sabe do problema da seca que o Nordeste enfrenta de tempos em tempos. Mas é curioso essa mudança de cenário em função da barragem e realmente para as comunidades, sejam elas pequeníssimas ou sejam médias, até grandes, de casas, de famílias inteiras que saíram dessa região e foram colocadas de uma forma forçada, em outros lugares para dar espaço para uma barragem. Isso faz com que haja muita desestruturação de relações familiares, de estruturação de rotina, de patrimônio e também de lembranças afetivas”, pondera.
Para ele, a barragem tem um efeito simbólico e se relaciona com o conflito da avó, que está lidando com a perda da memória. “A gente está falando de memórias esquecidas que vêm à tona, tem esse paralelismo simbólico, mas ela também tem essa importância narrativa no projeto para poder, junto com isso, resgatar a figura da mãe do Gugu, que é tão valente quanto ele próprio, quanto a avó. Então a gente está falando também sobre mulheres fortalezas, mulheres que não se calam, mulheres que vão de encontro à luta”, conta.
As informações são de Lucas Salum e Maria Teresa Cruz, do Brasil de Fato
|📸© Divulgação
Rádio Centro Cajazeiras
