|🏭👷🏿♂️👷🏻♀️ Avanço da tecnologia nas empresas altera rotina e pode levar à sobrecarga do trabalhador

O destaque deste episódio é o tema saúde mental no trabalho, cuja complexidade está no fato de que a atividade profissional pode ser fonte de propósito, crescimento e autoestima, mas também pode ser palco de pressão, sobrecarga e adoecimento. Portanto, o que se busca quando se fala em saúde mental no trabalho é o equilíbrio delicado entre o que nos fortalece e o que nos fragiliza. Nos últimos anos, o aumento de doenças psicológicas relacionado às atividades laborais tem levado a reflexões sobre a mudança das dinâmicas e organização do trabalho, ou seja, como as atividades e convívio dentro de uma empresa foram alterados com o tempo, com a presença da tecnologia em todos os setores.
Nesse contexto, segundo Giuliana Tortoriello Fagotti, advogada, pesquisadora no Grupo de Pesquisa em Meio Ambiente do Trabalho da Faculdade de Direito da USP, o psiquiatra Christophe Dejours divide duas dimensões que podem ser inseridas dentro da psicodinâmica laboral. São elas condições de trabalho e organização de trabalho – a primeira significa o aspecto físico presente no ambiente de trabalho, enquanto a segunda está nas técnicas e normas que estruturam a atividade. “Essa nova estrutura da organização laborativa traz um ritmo de produção mais rápido e com emprego de tecnologia, além de uma gestão generalista, o que acarreta diretamente na saúde mental do trabalhador”, diz Giuliana.

Outro fator que contribuiu para alterar a dinâmica do trabalho foi o uso de aplicativos de mensagens instantâneas, o que faz com que a todo instante o trabalhador esteja conectado com as suas atividades, “não existindo mais uma desconexão com o seu trabalho, podendo ser acionado a qualquer momento. O direito à desconexão é o direito do trabalhador de se desligar completamente do seu emprego e dedicar seu tempo à sua vida pessoal. É importante que ele possa descansar para que corpo e mente possam se recuperar. No entanto, com o avanço das novas tecnologias, esse direito está sendo cada vez mais negligenciado”, afirma Giuliana.
A consequência desse processo aparece na forma do surgimento de diversas doenças físicas e mentais, como o burnout, que é o esgotamento físico e mental do trabalhador, quando este não consegue mais realizar suas atividades por falta de energia, seja por excesso de demanda e retorno insuficiente, seja por estresse e necessidades de contrariar seus princípios.
Flexibilização de jornadas
Giuliana ilustra seu ponto de vista com os índices de afastamento por burnout do INSS, que está aumentando atualmente. “Isso pode estar relacionado à flexibilização das jornadas de trabalho, já que é cada vez mais comum ver trabalhadores atuando por mais de nove ou dez horas por dia. Além disso, muitas pessoas, mesmo fora do expediente, têm dificuldade em se desconectar completamente de suas tarefas.”
De acordo com ela, tudo indica que a sociedade atual encontra-se em um conflito entre os novos meios de gerenciamento de trabalho e os direitos sociais, especialmente no que se refere à preservação da saúde mental dos trabalhadores. “As exigências por produtividade, conectividade constante e adaptação a modelos flexíveis de organização desafiam os limites do bem-estar, gerando tensões que não podem ser ignoradas. Nesse cenário, torna-se imprescindível que a modernização das relações laborais seja acompanhada por políticas e práticas que priorizem a qualidade de vida, a prevenção do adoecimento psíquico e a valorização do indivíduo, de modo que o avanço econômico e tecnológico não se sobreponha à dignidade humana”, acrescenta ela.
As informações são do Jornal da USP
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