|💬 ‘Desmoralizado’ à frente da Câmara, Motta chega a 2026 com crise de credibilidade, diz analista

A Câmara dos Deputados passou por dinâmicas de obstrução e esgarçamento do devido processo legislativo, com votações na calada da madrugada em 2025. Esse expediente, inaugurado por Eduardo Cunha – de quem o atual presidente da Casa, Hugo Motta, é um discípulo –, usa o regimento para reduzir espaços de deliberação, discussão e a participação da sociedade civil.
A avaliação é da cientista política e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Mayra Goulart ao Brasil de Fato. Ela explica que o país tem um legislativo muito fragmentado, com 513 deputados e 81 senadores de partidos distintos, o que exige mecanismos de articulação para acelerar o processo legislativo.
“‘O papel dos líderes das Casas é orientar as votações e organizar a agenda com o colégio de líderes, tornando-a factível e minimizando o número de atores com poder de veto. E esse é o papel de um presidente: superar possíveis entraves e obstruções que impeçam o devido funcionamento da Casa legislativa’”, pontua.
A votação do projeto da dosimetria, em meados de dezembro de 2025, é um marco do primeiro ano de Hugo Motta à frente da Câmara.
“Vimos deputados às 4 horas da manhã e numa votação muito acelerada. Em outros projetos, também aconteceram votações em tempo recorde. Tudo isso obstaculiza a participação da sociedade civil no processo legislativo, e Motta tem responsabilidade em manter esse modelo que deflagra o que chamamos de solipsismo parlamentar”, declara.
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Solipsismo, no contexto parlamentar, ocorre quando um ator deixa de dialogar e volta-se apenas para si mesmo. Segundo Goulart, o Congresso está cada vez mais voltado para dinâmicas internas e fisiológicas, para a persecução de emendas parlamentares e recursos para irrigar seus territórios, ou para votar pautas defendidas por suas bases – e não por um projeto de nação ou desenvolvimento.
“Cabe destacar que, além disso, Hugo Motta foi de alguma forma incapaz até de organizar essas dinâmicas fisiológicas. Para que o ‘balcão’ funcione, é preciso um mínimo de capacidade de cumprir pactos. E parece que Motta não se mostrou capaz. Não é apenas o governo que não leva a sério o que ele diz, mas todos os atores, porque um político precisa ter essa credibilidade”, posiciona-se.
Em paralelo, Davi Alcolumbre, presidente do Senado em sua terceira gestão, é visto pela cientista política como um grande protagonista da República. A diferença para Motta, segundo ela, é que Alcolumbre “tem capacidade de fazer entregas”.
“Hugo Motta saiu desmoralizado de 2025, enquanto Alcolumbre se mantém como um dos principais protagonistas da República justamente por ser capaz de organizar as dinâmicas fisiológicas, evitando que se canibalizem”, define.
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Goulart acredita que a chamada “era hegemônica do Congresso” não é agora, mas sim durante o governo de Jair Bolsonaro. Naquela época, segundo a analista, o governo “rifou” a agenda governativa, deixando o Congresso governar livremente, fazendo seu “balcão” funcionar e ampliando-o de maneira progressiva.
“Quando colocamos num recorte temporal do quanto as emendas aumentaram, o governo Bolsonaro mostra um pico que fez essa dinâmica fisiológica se expandir em escala. Então, Alcolumbre, nesse momento da era Bolsonaro, exerceu um papel muito preponderante – que continua exercendo”, justifica.
Outra análise da cientista política aborda a diferença entre os líderes e seus colégios eleitorais. “Motta representa um colégio no Nordeste, região ainda dominada pelo PT e por Lula. Já Alcolumbre vem do Norte, onde há um avanço eleitoral da direita”, define.
Por Igor Carvalho E Tabitha Ramalho, do Brasil de Fato
|📸 © Marcelo Camargo/Agência Brasil
Rádio Centro Cajazeiras

