|💬‘Não é sobre criar estereótipos do Norte, mas ver a realidade’, diz protagonista de Pssica
Baseada em um livro de Edyr Augusto e dirigida por Quico Meirelles, a série Pssica segue fazendo sucesso nacional e internacional. A trama se passa na região amazônica, em cidades do Pará, e aborda temas complexos, como a violência contra mulheres e crianças e o tráfico de pessoas.
Além do cenário cortado pelas águas do Rio Amazonas, a narrativa apresenta um contexto que combina realidades sociais marcadas por inúmeras vulnerabilidades com a potência cultural do Norte do país.
Para a atriz Domithila Cattete, que interpreta a protagonista Janalice na série, o objetivo da produção era fugir de duas formas enviesadas, mas ainda muito recorrentes, de apresentar a região, a romantização e a estigmatização.
“A opressão feminina é uma realidade histórica que acontece em todos os lugares do mundo. Não é sobre trazer um estigma de preconceitos de periculosidade em relação ao Norte, mas perceber que sim, é uma região que precisa de mais olhar político para melhorar o social. Mas mostramos que não é só essa realidade que existe ali, tem também uma cultura fortíssima”, afirma, em entrevista ao Conversa Bem Viver.
Natural no Pará, a atriz não deixa de destacar as qualidades do estado onde nasceu e é enfática em afirmar que a arte e a vida real são indissociáveis, uma influenciando a outra.
“A arte e as realidades sociais andam lado a lado. Assim, a arte é um reflexo do que a gente vive e o que a gente vive é totalmente influenciado pela arte. Quando a gente traz o cinema para lugares que são socialmente mais invisibilizados, trazemos uma grande mudança de perspectiva também”, comenta.
Cattete também discute sobre as expectativas com a realização da COP30 em Belém, que acontecerá em novembro, e destaca a importância de proteger a Amazônia, diante do atual contexto de crise climática. “A Amazônia é algo nosso e a gente tem que se organizar para gerir essa região tão importante para o clima global, de forma a realmente protegê-la”.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato – O que significa ‘Pssica’, de fato, para os paraenses?
Domithila Cattete – Pssica é uma expressão que usamos bastante. Eu usava muito pssica inclusive em brincadeiras de criança, como “esconde-esconde”. Mas, para ser didática, pssica é como se significasse um azar, uma má sorte.
Por exemplo, quando estamos assistindo às Olimpíadas e queremos que a Rebeca Andrade ganhe, jogamos pssica na Simone Biles. Dizemos “pssica, pssica, pssica”, antes de ela fazer o movimento. Ou quando o time adversário vai marcar um pênalti, jogamos pssica nele para ele errar. E realmente funciona.
A série está fazendo sucesso dentro e fora do Brasil. Você esperava toda essa repercussão? Qual é a importância de dar visibilidade à cultura nortista?
Está tendo um sucesso mundial de Pssica. Entramos no top 10 de mais de 60 países. E não foi só no ranking de séries com língua não inglesa, mas no top 10 geral de tudo o que as pessoas estavam assistindo. Então, foi um sucesso global. Que bom poder levar a nossa cultura nortista para esse lugar.
Sempre teve esse movimento de se falar muito sobre a cultura nortista, que é uma cultura muito rica, com nossa música, nosso jeito de falar, nossas expressões. Mas antes não era gravado no Norte, era gravado no Sul, com atores do Sul.
Por mais que já exista muito cinema independente no Norte, cinemas de grande magnitude, com streamings muito fortes apoiando, trazem uma outra visibilidade. Que bom que isso está acontecendo cada vez mais.
Tivemos também o filme Manas, gravado pela diretora Marianna Brennand, que foi cotado para ser um dos filmes que pudesse representar o Brasil no Oscar. Que grandiosidade ter esse cinema acontecendo cada vez mais.
Pssica teve uma parte da equipe que veio do Sul para Belém, mas grande parte era do Norte e o elenco também era praticamente completo de pessoas do Norte e do Nordeste. Conseguimos trazer mais organicidade para as cenas, com as nossas expressões, os nossos improvisos, colocando um pouco da nossa cultura junto.
A Amazônia, em Pssica, não é só um cenário, não é só um rio. Ela conta toda uma narrativa dentro daqueles posicionamentos geográficos. E eu acho que isso é algo muito rico. Quando a gente traz o cinema para esses lugares, representando lugares que são socialmente mais invisibilizados, trazemos uma grande mudança de perspectiva também.
A série traz um conteúdo extremamente duro, abordando, por exemplo, violências contra mulheres e crianças. Qual é a dificuldade de gravar uma série que trata sobre temas como esses?
O veículo Brasil de fato bem sabe que essa realidade de opressão feminina não é uma realidade nova. Historicamente, sofremos muitas opressões e estamos suscetíveis a assédios. A série aborda o sequestro e o tráfico de mulheres, que pode acontecer em qualquer lugar do mundo.
A série é inspirada no livro de Edyr Augusto Proença, que pincela sobre esse assunto na geografia de Belém e de Marajó. Marajó é uma região com alguns lugares que têm os piores IDH do Brasil, com pessoas muito vulneráveis.
Então, tratar desse assunto vem com uma grande responsabilidade, não só como atriz, de interpretar a linguagem do cinema, mas também como pessoa, de estudar essa temática e entender que eu não estou falando da história de uma pessoa específica, mas estou representando uma história que é a realidade de muitas mulheres que nós não conhecemos. Nós não as conhecemos, mas elas existem de fato.
Por isso, foi preciso muito estudo, junto com essa preparação. Ler muitas reportagens, assistir a documentários, ver os casos reais, etc. São coisas que, com certeza, mexem com nós, mulheres.
Eu recebi muitos relatos de mulheres sobre como era difícil assistir Pssica, porque se identificavam com vários momentos de violência e de vulnerabilidade. Tinham medo pelas suas filhas, pelas conhecidas, porque sabem que o que se passa na série pode acontecer. Isso não é um gatilho para os homens, por exemplo, mas bate muito mais forte na gente.
Comigo, veio essa responsabilidade de entender sobre a temática, de forma política e social, para retratar de forma artística, mas podendo, ao dar visibilidade, mudar a realidade de muita gente. Quando falamos desse assunto, trazemos à tona o debate, geramos discussões dentro das casas e maior proteção para as pessoas.
Mas também geramos essa tensão, que pode trazer investimento de base e realmente melhorar a realidade. Estou falando do investimento na educação, na segurança, na estrutura basilar das sociedades mais marginalizadas. O primeiro passo é isso: conseguir ver e discutir. Essa possibilidade de debate vem dos jornais, por exemplo, mas vem também do cinema e das outras formas de expressão artística.
Figuras políticas, como a ex-ministra do governo Bolsonaro (PL) Damares Alves, falam sobre a região do Marajó de forma estigmatizadora. Você teve medo que a série contribuísse para reforçar os estigmas?
Não, até porque a realidade de opressão feminina é uma realidade histórica que acontece em todos os lugares do mundo. Pssica é baseada em um livro que realmente pincela na região de Belém e Marajó. Marajó é sim uma região que precisa de mais atenção e visibilidade, por ter um IDH muito baixo.
Às vezes, os crimes podem ser mais difíceis de serem mitigados e trazer uma sensação real de que o sistema não consegue proteger. Isso aparece na série, por exemplo, com a personagem Mariangel. A primeira opção dela é ir até uma delegacia, mas eles respondem: “e as provas?”. Eu estudo direito também. E esse momento mexeu muito comigo, porque é ver que o que eu estudo muitas vezes não alcança as pessoas mais vulneráveis.
Não é sobre trazer um estigma de preconceitos de periculosidade em relação ao Norte, mas perceber que sim, é uma região que precisa de mais olhar político para melhorar o social. A gente também traz isso muito claro em Pssica. Mostramos que não é só essa realidade que existe ali, mas tem também uma cultura fortíssima.
Belém é o meu lugar favorito no mundo. Temos a melhor comida do mundo, não tem nada igual ali. A gente tem eventos muito importantes, religiosos, turismo de sol e praia. É incrível. É uma cidade histórica que já teve vários períodos de ascensão, como a época da borracha. Tem casas muito bonitas, tem igrejas muito bonitas, como a Igreja da Basílica.
Então, é um lugar lindo, rico, com uma potencialidade absurda no cinema, fora do cinema, mas que, como em qualquer outro lugar do mundo, tem sim problemas que precisam ser olhados. O tráfico de mulheres acontece e é uma realidade que muitas vezes é invisibilizada. Mas não acontece só no Brasil e sim no mundo todo.
Não é sobre sensacionalizar, não é sobre criar estereótipos e mais preconceitos. É sobre ver a realidade fatídica que acontece e tentar mitigar por meio de políticas básicas.
A COP30 acontece em novembro em Belém. Como tem sido a expectativa com a conferência na região?
A gente ter um evento que fale sobre o clima global na Amazônia é algo fortíssimo, porque já existiram muitos debates se a Amazônia, que é um território nosso, deveria ser um território mundial e global de todos.
A Amazônia é algo nosso e a gente tem que se organizar através dos políticos que escolhemos para gerir essa região tão importante para o clima global, de forma a realmente protegê-la.
Estamos levando pessoas do mundo todo, com suas representações políticas, para uma capital do Norte, para ver que a gente tem estrutura, temos lugares lindos, temos geografias e paisagens únicas que você não encontra em lugar nenhum, e temos sim uma política que pode recebê-los e também discutir esses assuntos tão importantes.
Isso reforça muito a nossa soberania, com nós mesmos, sobre o nosso território, que não deveria ser discutido se é realmente nosso. Então, Belém tem se preparado para receber a COP30 e isso é algo que me alegra muito, poder mostrar minha cidade.
Existe muita estigmatização de alguns jornais que são de fora de Belém, com notícias que mostram dados que a gente tem que se preocupar se são realmente verdadeiros, porque não fazem total sentido com a nossa realidade. Às vezes anunciam, por exemplo, que os indígenas estão desistindo de ir, que “só” vão ter 3 mil indígenas, mas sempre foi esse o número.
Então, tem algumas faltas de comunicação que eu não entendo porque estão acontecendo, mas me alegra muito recebermos esse evento de fato na Amazônia. Eu acho que é um passo importantíssimo para a soberania do Brasil.
Parece que sempre querem colocar Belém em um local de questionamento?
Totalmente, e trazendo para o cinema, por exemplo, é algo muito novo pararem de pedir para os atores amenizarem o seu sotaque, por exemplo. Sendo que o Norte sozinho já é mais de 45% do território brasileiro. Por que o nosso sotaque é o errado? Por que a gente tem que amenizar?
Isso tem sido cada vez mais questionado, com os atores dizendo: “não, eu não preciso amenizar meu sotaque”. É muito recente a gente conseguir se impor como igual e isso vem também com essas políticas de desenvolvimento, até porque a arte e as realidades sociais andam lado a lado. Assim, a arte é um reflexo do que a gente vive e o que a gente vive é totalmente influenciado pela arte. Então, a gente conseguir relacionar o nosso cinema.
Sua estreia no mundo artístico foi por meio do teatro? Como foi atuar em O Auto da Compadecida?
Foi no teatro. A gente já tinha feito essa montagem. Eu fazia teatro em Belém e essa foi a minha base. Eu fiz teatro desde muito criancinha, porque tinha na minha escola, mas eu também nunca achei que conseguiria trabalhar com isso. O Auto da Compadecida é uma peça muito especial.
Teve o Auto da Compadecida 2 recentemente, que me deixou artisticamente extasiada vendo a Fabiula Nascimento naquela personagem que trouxe a linguagem do teatro mais para o cinema de forma tão majestosa. Enfim, as coisas vão se complementando nessa nossa trajetória artística. Eu estou estudando cada vez mais. Desde que terminei Pssica, venho experimentando diferentes métodos de atuação e me debruçando sobre eles.
Por Ana Carolina Vasconcelos e Lucas Salum, do Brasil de Fato
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