Conteúdo brasileiro encolhe nas grandes plataformas enquanto mercado de VOD se expande e fragmenta 📸 © Cottonbro Studio/Pexels

A Ancine divulgou nesta terça, 2, o “Panorama do Mercado de Vídeo por Demanda no Brasil 2025”. O estudo chega em um momento crucial, fornecendo dados técnicos que devem subsidiar o debate final no Senado Federal sobre a regulação do streaming (PL 2.331/2022). Os números revelam um cenário de expansão quantitativa do mercado, mas de retração percentual da presença de conteúdo brasileiro nas plataformas de maior audiência, reforçando a assimetria entre players nacionais e estrangeiros.

O levantamento, realizado com dados coletados em agosto de 2025 pela BB Media/Fabric, ampliou significativamente sua amostra para 106 plataformas (contra 60 em 2024), mapeando um total de mais de 138 mil títulos únicos disponíveis no país.

Retração e concentração

Um dos dados mais sensíveis para o debate regulatório é a presença de conteúdo nacional nas cinco plataformas de maior audiência (Amazon Prime Video, Netflix, Globoplay, Max e Disney+). O estudo aponta uma tendência de queda pelo segundo ano consecutivo.

A participação de obras brasileiras nesses catálogos, que era de 8,5% em 2023 e 7% em 2024, caiu para 6,3% em 2025. Em números absolutos, a quantidade de títulos nacionais nessas cinco plataformas somadas também recuou: de 1.867 (2023) para 1.824 (2024) e agora para 1.761.

O cenário é ainda mais desigual quando se isola a Globoplay, única plataforma brasileira entre as líderes. Sem ela, a participação nacional nos catálogos das quatro gigantes estrangeiras (Amazon, Netflix, Max e Disney+) despenca para apenas 2,7%, sendo 2,2% de produção independente. A Disney+, por exemplo, tem apenas 1,3% de obras brasileiras em seu acervo (37 títulos).

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Resistência

Se as grandes plataformas internacionais mostram números tímidos, o estudo confirma que o conteúdo nacional encontra seu porto seguro nas plataformas brasileiras e de nicho.

No recorte geral de 70 plataformas analisadas para conteúdo nacional, as brasileiras, apesar de terem catálogos totais menores, superaram as estrangeiras em número absoluto de obras nacionais: são 3.906 títulos em plataformas brasileiras contra 3.641 em estrangeiras.

Proporcionalmente, a diferença é gritante: enquanto as plataformas estrangeiras têm apenas 6,5% de conteúdo brasileiro, nas nacionais essa fatia chega a 20,5%.

O destaque vai para serviços que não haviam sido mapeados anteriormente e assumiram a liderança do ranking de “brasileiridade”:

  1. Brasiliana TV – 80% de conteúdo nacional;
  2. Embaúba Play – 53%;
  3. Curta!On e Tamanduá TV – Ambas com 46%;
  4. Box Brazil Play – 36%.

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Expansão e fragmentação

O mercado de VOD no Brasil consolidou uma trajetória de expansão e complexidade. A modalidade por assinatura (SVOD) continua dominante em volume, com 84 mil títulos, seguida pelo modelo gratuito (Free VOD/AVOD), que já soma 49 mil títulos.

Entre as plataformas com os maiores catálogos totais, houve uma mudança de liderança. A Claro TV+ retomou o primeiro lugar com 17.368 títulos, focando na estratégia de TV Everywhere e transacional (TVOD), enquanto reduziu drasticamente seu catálogo de assinatura (SVOD). Ela é seguida pelo serviço gratuito Plex (12.800 títulos) e pela Vivo Play (12.265).

Considerando apenas o modelo de assinatura (SVOD puro), a Netflix lidera com 7.790 títulos, mas é seguida de perto por plataformas de nicho e brasileiras como Univer Video (6.285) e Looke (5.773), que superam em volume os catálogos de assinatura da Amazon Prime Video e Sky+.

Outros destaques

  • Concentração de Títulos: O estudo aponta um forte “insulamento”. Mais de dois terços (67,1%) das obras brasileiras estão disponíveis em apenas uma ou duas plataformas, limitando sua visibilidade.
  • Obras Independentes: Do total de 5.564 obras brasileiras com CPB (Certificado de Produto Brasileiro) identificadas, a maioria (3.931) é de produção independente.
  • Ficção Domina: Obras de ficção representam 49% dos títulos brasileiros disponíveis, uma proporção muito superior à presença desse gênero no registro geral da Ancine (31%), indicando uma alta demanda do VOD por esse tipo de conteúdo.
  • Janelas de Exibição: O VOD se consolidou como uma janela essencial para o cinema nacional. Mais da metade (52,3%) de todos os filmes brasileiros lançados nos cinemas desde 1995 estão disponíveis em alguma plataforma de streaming. Além disso, 27,5% das obras veiculadas na TV paga na última década também estão no VOD.

A Ancine ressaltou que o levantamento não é censitário, pois os agentes não são obrigados a fornecer dados, o que reforça a necessidade de regulação para garantir transparência. A metodologia de identificação de obras brasileiras baseou-se no cruzamento com a base de CPBs da agência.

Por Fernando Lauterjung, do Telaviva

|📸 © Mohamed Hassan/Pixabay