|📽🍸🍹‘(Des)controle’: filme de Rosane Svartman lança olhar sem tabus sobre o alcoolismo
Enquanto o Carnaval toma as ruas e o país celebra com música e alegria, um tema silencioso e devastador segue presente no cotidiano de milhões de brasileiros: o alcoolismo. Dados do Panorama 2025, publicado pelo Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa) com base em informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelam que 10,5% das mortes associadas ao uso de álcool no Brasil são causadas pela dependência da substância. São 21 casos fatais por dia — um a cada hora. Além disso, quatro pessoas são hospitalizadas a cada hora no país em decorrência do mesmo problema.
Para discutir o tema com profundidade e sem moralismos, o Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, conversou com a cineasta Rosane Svartman, diretora do filme (Des)controle, que chega aos cinemas trazendo a história de uma escritora em luta contra o alcoolismo, vivida por Carolina Dieckmann. O longa, escrito por Iafa Britz, propõe uma imersão sensível e realista nos dilemas de quem enfrenta a doença — e de quem está ao redor.
Svartman conta que a decisão de dirigir o filme veio de um lugar muito pessoal e, ao mesmo tempo, coletivo. “Quando li o roteiro, sonhei com uma grande amiga que morreu em decorrência da doença. No sonho, ela dizia: ‘Eu tô viva’. Acordei e liguei para a produção dizendo: ‘Vamos fazer esse filme. Ele tá vivo na sociedade’.”
A diretora destaca que a arte tem um papel fundamental em trazer à tona temas que são sistematicamente ignorados ou romantizados. “A gente fala muito sobre álcool, mas pouco sobre os efeitos e sobre o alcoolismo como doença. A sociedade celebra o álcool o tempo todo, em brindes, encontros, festas, mas há um véu sobre o sofrimento que ele pode causar.”
Ela mesma, vinda de uma trajetória na televisão, fez uma autocrítica. “Quantas vezes em novelas coloquei pessoas bebendo, fumando, celebrando? Uma novela é um espelho da sociedade, mas o filme me fez ver isso com outros olhos.”
Um dos aspectos mais impactantes do filme é a forma como ele expõe as diferenças de gênero no tratamento social dado ao consumo de álcool. “Uma mulher bêbada é vista de forma completamente diferente de um homem. Uma mãe que bebe é julgada; um pai que bebe é só ‘estressado’”, observa Svartman.
A cineasta também reflete sobre o incômodo que o filme provoca no público ao questionar os próprios limites. “Muita gente sai do cinema pensando: ‘Será que eu sou dependente? Já me coloquei em perigo? Já coloquei outros em risco?’ Isso é muito poderoso. O filme não aponta dedos, mas acende uma luz.”
Para garantir que o tema fosse tratado com responsabilidade, a equipe contou com consultoria psiquiátrica e psicológica. “A gente queria abordar a doença sem estigmas, mas também sem romantizar. É um assunto que mistura saúde mental, sobrecarga, relações familiares. Tudo isso está no filme.”
Antes mesmo das filmagens, a roteirista Iafa Britz insistiu em realizar uma sessão aberta do roteiro com a equipe técnica. “Ela disse que era necessário. Depois da sessão, várias pessoas, anonimamente, procuraram ajuda. Naquele momento, eu entendi que só isso já valia o filme”, relembra a diretora.
Desde o lançamento, o longa tem recebido mensagens emocionantes de espectadores que se reconheceram na trama ou que buscaram apoio após assisti-lo. “Isso me faz pensar no sentido da arte. Para que serve contar histórias? Serve para isso: para iluminar conflitos, para nos ajudar a pensar de onde viemos e para onde vamos.”
Em tempos de festa, a diretora faz um convite à reflexão. “Uma pessoa me disse que experimentou passar um dia de Carnaval sóbria e se sentiu muito mais presente na alegria. Não é sobre não beber, é sobre beber com consciência, sobre saber onde, como e com quem.”
(Des)controle segue em cartaz nos cinemas. Para Rosane, a jornada do filme vai além da sala escura. “A arte é política no sentido de que ela nos ajuda a refletir sobre a sociedade. E se esse filme puder ajudar alguém a se reconhecer, a pedir ajuda, a apoiar quem está perto, já cumpriu seu papel.”
Por Gabriela Carvalho e Lucas Krupacz e Nara Lacerda e Tabitha Ramalho, do Brasil de Fato
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Rádio Centro Cajazeiras
