A tradicional Festa do Peão de Barretos completa 70 anos este ano e acontece até o próximo domingo (30). Muito mais que um local de competições de rodeio e apresentação de artistas sertanejos, ela expressa a união entre o agronegócio e a indústria cultural no Brasil.

Ao BdF Entrevista, a pesquisadora Ana Chã, autora do livro “Agronegócio e Indústria Cultural”, afirma que o tradicional evento paulista transcende o entretenimento rural e atua ativamente na consolidação de uma imagem moderna e vitoriosa do setor.

“A festa caminha para esse lugar de construir um imaginário do agro como a grande vitória do Brasil perante o mundo, como esse lugar de produção de commodities super avançado, super mecanizado”, explica a pesquisadora, destacando que o espetáculo projeta o agronegócio não apenas como uma atividade econômica, mas como um verdadeiro projeto político para o país.

Com o passar das décadas, a celebração da vivência do homem do campo e do peão boiadeiro deu lugar à espetacularização e à ostentação de cifras bilionárias. Chã aponta que a contratação massiva de influenciadores digitais e o surgimento do gênero “agronejo” são estratégias deliberadas da indústria cultural para alcançar o público jovem e criar novos desejos de consumo.

“A questão da ostentação é uma marca que tem se tornado cada vez mais forte na festa do peão. Então, nesse ano, além do acampamento comum, tem umas espécies de cabanas premium, que é um valor super alto, acho que são R$ 30 mil, para passar os 11 dias do rodeio. Enfim, a gente tem influenciadores criando suas próprias vilas lá”, relata. 

De acordo com a autora, esse novo estilo musical reflete uma defesa explícita do agronegócio associada à exaltação de valores conservadores e de meritocracia neoliberal. “O agronejo acaba respondendo a uma necessidade de expandir o seu público, criando um vínculo emotivo, um vínculo de balada e um vínculo a partir desses valores, que são conservadores, mas também são muito do campo do avanço do neoliberalismo”, analisa.

Essa forte presença na mídia, que historicamente inclui novelas de grande audiência e, mais recentemente, campanhas digitais e shows focados até no público infantil, com artistas como Ana Castela, reflete um esforço de décadas do setor para apagar a antiga associação do latifúndio ao atraso ou à improdutividade.

“No final dos anos 1990, em especial nos anos 2000, surge a necessidade de que essa modernização apareça como imagem. Então, ela passa a fazer parte, digamos assim, dessa visão, desse imaginário social que a gente tem dentro do país, mas também para fora, de certa forma, de como o Brasil se apresenta ao mundo como esse grande celeiro. E aí, as próprias marcas passam a apostar”, afirma.

Ana Chã pondera que essa hegemonia cultural convive com contradições profundas, como o uso intensivo de agrotóxicos e a dependência de pesados subsídios públicos. Diante disso, movimentos populares como o MST propõem um modelo alternativo baseado na agroecologia, na cooperação e na redistribuição de terras. Contudo, ainda existe um processo de comunicação de massa muito desigual.

“O MST tem 1 milhão de seguidores, a Ana Castela completou agora 25 milhões de seguidores. Então você vai ter muita disparidade entre o alcance que tem um vídeo, uma proposta do MST, e o que têm hoje os que seriam esses grandes porta-vozes do agro”, exemplifica.

Para a pesquisadora, o caminho para enfrentar esse cenário desigual de comunicação exige “fazer com que as pessoas conheçam outras possibilidades, elas conheçam outra maneira de organizar a agricultura, a vida e a própria política” por meio da vivência prática cotidiana.

As informações são de Maria Teresa Cruz e Raquel Setz, do Brasil de Fato

|📸© Bruno Concha/SECOM-PMS