Pesquisa da USP mostra como a radiodifusão foi mobilizada pelo governo Vargas na propaganda política e na aproximação diplomática, primeiro com regimes totalitários europeus e, depois, com os EUA 📸© Donna Rodgers/Pixabay

Em um cenário marcado pela disputa eleitoral e pela expansão das redes sociais e da inteligência artificial na circulação de informações, o papel dos meios de comunicação na formação da opinião pública permanece em debate. No Brasil das décadas de 1920 a 1940, era o rádio que ocupava uma posição estratégica nesse processo. Uma pesquisa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP mostra como o veículo foi utilizado para difundir ideias, promover interesses políticos e apoiar estratégias diplomáticas do governo brasileiro entre 1922 e 1945.

Segundo o historiador Matan Ankava, autor do estudo, embora os contextos históricos e meios sejam diferentes, é possível estabelecer paralelos entre aquele período e o atual. A disputa pelo controle dos meios de comunicação e pela circulação de informações continua sendo um fator importante na formação da opinião pública. “Quem domina os canais de comunicação e consegue mobilizá-los para fazer suas mensagens circular detém sempre um imenso capital político e influência sobre o debate público”, afirma.

Ankava é autor do artigo Nas ondas do autoritarismo: o rádio e a diplomacia pública do Departamento de Propaganda e Difusão Cultural publicado na Revista Continentes e defendeu tese na FFLCH sobre o mesmo assunto, sob a orientação da professora Elizabeth Cancelli. O trabalho analisa o uso político da radiodifusão pelo governo de Getúlio Vargas entre 1934 e 1937, quando o rádio ganhou importância como instrumento de comunicação oficial e de articulação diplomática.

Para o professor Antônio Mota, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e do Programa de Pós-Graduação em História Econômica da USP, a era Vargas mostra como os meios de comunicação podem ser mobilizados para difundir ideias autoritárias, construir consensos e fortalecer projetos políticos. “As condições históricas são distintas, mas essas questões permanecem atuais diante do avanço da extrema-direita, que utiliza as redes sociais e as plataformas digitais para disseminar discursos antidemocráticos, mobilizar apoiadores e disputar a interpretação da realidade”, diz.

Rádio e propaganda dos regimes totalitários

Segundo a pesquisa, o uso político do rádio pelo governo Vargas estava relacionado ao cenário internacional dos anos 1930, marcado pela ascensão de regimes autoritários na Europa. Antes de o Brasil se posicionar a favor dos países aliados na Segunda Guerra Mundial (Estados Unidos, Reino Unido e União Soviética), o governo brasileiro manteve relações com países do Eixo, formado por Alemanha, Itália e Japão. 

Foi nesse contexto que organismos oficiais brasileiros estabeleceram contatos e formas de cooperação com estruturas de propaganda e radiodifusão da Alemanha nazista e da Itália fascista. De acordo com o historiador, essas relações favoreceram a circulação de discursos, referências estéticas e conteúdos associados aos regimes totalitários europeus. O rádio, por seu alcance e pela possibilidade de transmitir mensagens diretamente aos ouvintes, tornou-se um meio estratégico para a divulgação dessas ideias.

“Na prática, era cedido um canal direto na mídia oficial obrigatória para difundir conteúdos, estéticas e discursos alinhados a esses regimes, aproximando a população brasileira das ideologias desses regimes totalitários europeus”, afirma Ankava.

A Hora do Brasil – estratégias para implantar a ditadura

Getúlio Vargas governou o Brasil em dois períodos: de 1930 a 1945 e de 1951 a 1954. A primeira passagem pela Presidência foi marcada por três fases: o Governo Provisório (1930-1934), o Governo Constitucional (1934-1937) e o Estado Novo (1937-1945), período de regime ditatorial. Em seu segundo mandato, entre 1951 e 1954, Vargas voltou ao poder por meio de eleições diretas.

Entre 1934 e 1937, as iniciativas de controle e utilização dos meios de comunicação pelo governo estavam vinculadas ao Departamento de Propaganda e Difusão Cultural (DPDC), órgão responsável pela propaganda oficial. Uma das principais iniciativas desse período foi o programa A Hora do Brasil, criado em 1935 com o nome de Programa Nacional.

Transmitido obrigatoriamente pelas emissoras de rádio de todo o País, o programa ampliou o alcance das mensagens do governo Vargas. O rádio passou a ser utilizado para divulgar ações e posicionamentos políticos e também como espaço de apresentação da política externa brasileira.

Segundo o estudo, neste período, Vargas utilizou o rádio como instrumento de diplomacia pública para se aproximar dos regimes autoritários. Construiu parcerias com equipes de estruturas de radiodifusão da Alemanha nazista e da Itália fascista: “Essas conexões ampliavam a circulação de mensagens autoritárias, que certamente favoreciam as restrições políticas impostas pelo próprio governo brasileiro”, relata o historiador.

Ditadura e a nova Constituição

Durante o Estado Novo, o governo fechou o Congresso Nacional e outorgou uma nova Constituição, que institucionalizava a ditadura. Em 1939, foi criado o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), responsável por controlar os meios de comunicação, censurar conteúdos, perseguir opositores e promover a imagem do presidente. “Nesse contexto, o rádio ganhou ainda mais importância por permitir que o governo transmitisse suas mensagens a um público amplo”, relata o pesquisador. A comunicação oficial passou a integrar um sistema de propaganda que buscava legitimar o regime e restringir a circulação de informações contrárias aos interesses governamentais.

Em 1940, Vargas incorporou a Rádio Nacional ao patrimônio da União, ampliando sua importância como veículo de comunicação oficial. A emissora, porém, não se limitava à divulgação das ações do governo. Sua programação também incluía radionovelas, programas musicais, humorísticos e de auditório, o que contribuiu para conquistar uma audiência ampla e diversificada.

A combinação entre informação oficial e entretenimento ajudou a transformar a Rádio Nacional em uma das principais emissoras brasileiras da época. Com grande alcance e presença no cotidiano dos ouvintes, a rádio se tornou também um espaço estratégico para a circulação de discursos e ideias durante o governo Vargas.

A aproximação dos Estados Unidos pelo rádio

À medida que a Segunda Guerra Mundial avançava, Vargas reduziu a aproximação com Alemanha, Itália e Japão e estreitou os vínculos com os Estados Unidos, por interesses políticos, econômicos e militares. Essa mudança também se refletiu na comunicação. “O rádio, antes utilizado para a circulação de referências ligadas aos regimes europeus, passou a acompanhar a nova orientação da política externa brasileira”, relata o historiador.

O movimento ocorreu no contexto da Política da Boa Vizinhança, adotada pelos Estados Unidos para ampliar a cooperação e a influência no continente latino-americano. O rádio fazia parte dessa estratégia, junto com iniciativas de intercâmbio cultural, científico e econômico. A Fundação Rockefeller, por exemplo, teve uma participação central nessa estratégia. Em 1940, Nelson Rockefeller foi nomeado diretor do Office of the Coordinator of Inter-American Affairs (OCIAA), que passou a controlar as iniciativas de comunicação com a América Latina. O órgão mantinha uma divisão dedicada exclusivamente ao rádio, responsável pela produção e distribuição de conteúdo para o público da região.

Segundo o pesquisador, a mudança na política externa brasileira ganhou maior definição em 1942, quando o Brasil rompeu relações diplomáticas com as potências do Eixo e aprofundou a parceria com os Estados Unidos, inclusive por meio de acordos econômicos e militares. Nesse cenário, o rádio passou a integrar as estratégias de aproximação com os Aliados e a difundir novas referências políticas e culturais.

Para o professor Mota, o rádio desempenhou um papel estratégico ao acompanhar as transformações nas alianças internacionais do Brasil ao longo da história. “Estudar o passado permite compreender quais as rupturas e continuidades que existem no modus operandi entre o fascismo histórico e o neofascismo contemporâneo”, avalia.

As informações são de Ivanir Ferreira, do Jornal da USP

|📸© Esma Bartin/Pexels

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