Falta de fiscalização, sinalização e planejamento urbano dificultam a mobilidade de quem anda a pé nas cidades brasileiras 📸© Maria Ana Krack/PMPA

Caminhar pelas cidades brasileiras pode significar disputar espaço com carros, esperar infinitamente pelo sinal do pedestre e, muitas vezes, atravessar a rua sem a garantia de que os motoristas vão respeitar a prioridade de quem está a pé. Embora o Código de Trânsito Brasileiro estabeleça que o pedestre tem preferência na maioria das situações, a prática cotidiana ainda revela uma realidade em que os deslocamentos de automóveis costumam ser priorizados.

O artigo 70 do Código de Trânsito Brasileiro determina que os pedestres têm prioridade de passagem nas faixas, com exceção dos locais onde há sinalização semafórica. Mesmo nesses casos, quem já iniciou a travessia quando o sinal muda deve ter o direito de concluí-la com segurança. Na prática, porém, problemas como a falta de fiscalização, a sinalização deficiente e o desenho das próprias vias tornam a travessia mais difícil.

Para Mauro Calliari, autor da tese de doutorado O pedestre e a cidade: mobilidade e fruição em São Paulo, defendida na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, essa dificuldade não é recente. Ela está relacionada ao próprio processo de urbanização brasileiro e à consolidação do automóvel como principal referência para o planejamento das cidades.

Ao longo de décadas, decisões urbanísticas foram tomadas para facilitar o deslocamento dos carros. O resultado é uma estrutura que nem sempre considera as necessidades de quem se desloca a pé. Isso afeta especialmente pessoas que precisam de mais tempo para atravessar uma rua, como idosos, pessoas com deficiência e quem está acompanhado de crianças ou empurrando um carrinho de bebê.

Um exemplo está no tempo destinado à travessia nos semáforos. O cálculo costuma considerar uma velocidade de caminhada de 1,2 metro por segundo, parâmetro que representa uma pessoa em condições consideradas normais de deslocamento. Para quem caminha mais devagar, como idosos e crianças, esse intervalo pode ser insuficiente.

Educação insuficiente

O problema também aparece em locais onde não há semáforo. Mesmo quando existe uma faixa de pedestres, muitos motoristas não reduzem a velocidade ou não dão passagem. Para Calliari, esse comportamento é resultado de uma combinação de fatores: educação insuficiente para o trânsito, baixa fiscalização, sinalização inadequada e um desenho viário que muitas vezes favorece a continuidade do fluxo de veículos.

A questão ultrapassa a segurança no trânsito. Para o pesquisador, dificultar a caminhada significa também limitar o direito de circulação e de acesso à própria cidade. Afinal, andar a pé não é apenas uma forma de chegar a um destino. É parte da experiência urbana e também está diretamente ligada ao transporte público: muitas pessoas precisam caminhar para chegar ao ônibus, ao trem ou ao Metrô.

Por isso, pensar em mobilidade urbana exige incorporar o ponto de vista de quem anda a pé. Isso envolve considerar diferentes grupos da população na elaboração das políticas públicas, incluindo pessoas com deficiência, idosos, crianças, pessoas com filhos e aqueles que dependem diariamente do transporte público e da caminhada.

Um exemplo citado por Calliari é Brasília, onde uma iniciativa conhecida como Sinal da Vida passou a incentivar os pedestres a estender a mão antes de atravessar a rua. A prática, associada a campanhas de conscientização sobre segurança no trânsito, tornou-se parte da cultura local e busca estabelecer uma comunicação direta entre pedestres e motoristas.

Mas melhorar a experiência de quem caminha vai além de garantir que uma pessoa consiga atravessar a rua sem ser atropelada. O pesquisador também trabalha com o conceito de fruição urbana, relacionado à possibilidade de vivenciar a cidade durante os deslocamentos cotidianos.

Nesse sentido, uma cidade mais caminhável não depende apenas de calçadas existentes. É preciso que elas sejam acessíveis, tenham boas condições de conservação, sombra, áreas verdes e conexão com o comércio e outros espaços urbanos. As travessias também precisam ser seguras e o percurso, agradável.

Transformar essa realidade depende de decisões de planejamento urbano, fiscalização e educação no trânsito. Para Calliari, a mudança é possível, mas exige vontade política para redesenhar as ruas e modificar uma lógica construída ao longo de décadas.

Quando caminhar pela cidade deixa de ser uma experiência segura e confortável, o impacto não é apenas individual. O medo e a dificuldade de circulação podem fazer com que as pessoas deixem de ocupar os espaços públicos. E uma cidade em que seus moradores têm cada vez menos liberdade para caminhar também perde parte de sua vitalidade urbana.

Por Talita de Paula Souza, com Paulo Capuzzo e Cinderela Caldeira, do Jornal da USP

|📸© Gustavo Roth/EPTC/PMPA