Uma em cada trĂȘs brasileiras viveu alguma situação de violĂȘncia domĂ©stica ou familiar nos Ășltimos 12 meses. Mas apenas 4% declararam espontaneamente ter sofrido violĂȘncia. Outros 29% nĂŁo se reconheceram como vĂ­timas, embora tenham relatado situaçÔes concretas de agressĂŁo. Esse Ă© um dos principais achados da Pesquisa Nacional de ViolĂȘncia contra a Mulher, produzida pelo DataSenado e pelo ObservatĂłrio da Mulher contra a ViolĂȘncia (OMV) do Senado.

A distĂąncia entre a violĂȘncia vivida e a declarada, no entanto, nĂŁo Ă© igual em todo o paĂ­s. Em Alagoas, 36% das mulheres relataram situaçÔes de violĂȘncia sem identificĂĄ-las como violĂȘncia domĂ©stica ou familiar. No Amazonas, foram 35%; no Acre e em Tocantins, 34%. ParanĂĄ e SĂŁo Paulo registraram os menores percentuais, ambos com 25%.

Com 21.641 mulheres entrevistadas, o levantamento permite enxergar diferenças que a mĂ©dia brasileira nĂŁo revela. No Amazonas, por exemplo, 7% das mulheres declararam espontaneamente ter sofrido violĂȘncia no Ășltimo ano, ante 4% no paĂ­s. No Acre, o marido ou companheiro foi apontado como agressor por 73% das vĂ­timas; no Distrito Federal, por 48%.

— Ampliar a Rede de Proteção Ă© fundamental, mas os dados mostram que precisamos olhar tambĂ©m para o que acontece antes de a mulher chegar na Rede. Uma polĂ­tica pĂșblica sĂł consegue proteger plenamente quando as mulheres tĂȘm informação para reconhecer a violĂȘncia, conhecem seus direitos e encontram caminhos acessĂ­veis e seguros para buscar ajuda — afirmou Maria Teresa Prado, coordenadora do ObservatĂłrio da Mulher contra a ViolĂȘncia do Senado.

Para a antropĂłloga Beatriz Accioly, o reconhecimento das situaçÔes de violĂȘncia como tal Ă© fundamental. Viver situaçÔes de violĂȘncia sem assim nomeĂĄ-las revela uma barreira anterior ao prĂłprio acesso Ă  polĂ­tica pĂșblica.

— Se a mulher nĂŁo reconhece o que vive como violĂȘncia, torna-se muito mais difĂ­cil procurar proteção e acolhimento — explicou Beatriz, gerente de polĂ­ticas pĂșblicas pelo Fim da ViolĂȘncia Contra Mulheres no Instituto Natura, parceiro no Mapa Nacional da ViolĂȘncia de GĂȘnero.

A pesquisa nacional Ă© realizada hĂĄ 20 anos pelo Senado e Ă© a maior do paĂ­s sobre o tema da violĂȘncia domĂ©stica contra mulheres. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, destacou a importĂąncia da iniciativa:‹

— Neste mĂȘs de agosto, em que o Brasil celebra os 20 anos da Lei Maria da Penha e promove as açÔes do Agosto LilĂĄs, o Senado Federal entrega Ă  sociedade brasileira uma nova edição do recorte estadual da Pesquisa Nacional de ViolĂȘncia contra a Mulher. A divulgação dos dados reforça um princĂ­pio essencial: enfrentar a violĂȘncia exige conhecĂȘ-la em profundidade. Dados confiĂĄveis ajudam a aperfeiçoar leis, direcionar açÔes governamentais e fortalecer iniciativas de prevenção e acolhimento. Conhecer a realidade Ă© condição indispensĂĄvel para transformĂĄ-la — declarou Davi.

Percepção do aumento da violĂȘncia

A pesquisa tambĂ©m mostra que em todos os estados e no Distrito Federal, a maioria das mulheres acredita que a violĂȘncia domĂ©stica e familiar aumentou nos Ășltimos 12 meses.

Em todo paĂ­s, a maior parte das mulheres responderam que a violĂȘncia domĂ©stica cresceu nos Ășltimos 12 meses (79%). Na maioria dos estados, os patamares estĂŁo estatisticamente prĂłximos Ă  mĂ©dia nacional.

Na percepção sobre o aumento da violĂȘncia domĂ©stica, os percentuais mais altos foram registrados em Alagoas (85%) e na Bahia (84%), acima da mĂ©dia nacional. Entre os estados que ficaram abaixo da mĂ©dia nacional, os menores Ă­ndices estĂŁo no ParanĂĄ e em Minas Gerais. Em ambos, 73% das mulheres tiveram uma percepção de aumento na violĂȘncia domĂ©stica nos 12 meses anteriores Ă  pesquisa.

AlĂ©m da falta de reconhecimento do que Ă© violĂȘncia, para parte das mulheres falta conhecimento sobre instrumentos de proteção.  No paĂ­s, 78% das mulheres afirmam conhecer pouco (67%) ou nada (11%) sobre a Lei Maria da Penha.

Os estados com maior percentual de mulheres que disseram nĂŁo conhecer nada sobre a Lei Maria da Penha foram RondĂŽnia e PiauĂ­, ambos com 18% das mulheres nessa situação. JĂĄ AmapĂĄ e Mato Grosso ficaram mais distantes da mĂ©dia nacional, com 8% das mulheres afirmando nĂŁo saber nada sobre a Lei Maria da Penha.

A pesquisa tambĂ©m traz dados divididos por unidade da Federação sobre o grau de conhecimento sobre os serviços que integram a rede de proteção Ă  mulher:

  • Delegacias da mulher (93%) 
  • Ligue 180 (76%) 
  • Defensoria PĂșblica (87%) 
  • Serviços de assistĂȘncia social, como CRAS e CREAS (81%)

Vulnerabilidade 

É possĂ­vel observar com os dados da pesquisa a situação de vulnerabilidade enfrentada por muitas mulheres dentro da prĂłpria casa em cada unidade da Federação,   

Em 62% dos casos no Brasil, o agressor Ă© o marido ou companheiro da vĂ­tima. Essa proporção sobe para 73% no Acre e 71% no MaranhĂŁo. Os menores Ă­ndices nessa parte da pesquisa sĂŁo o Distrito Federal (48%) e SĂŁo Paulo (52%).

Em todo o Brasil, 12% das mulheres responderam que ainda moram com o agressor. A proporção Ă© ainda mais elevada em Sergipe (23%), no Acre (22%) e no Rio Grande do Sul (19%). Na outra ponta, Distrito Federal e Minas Gerais tĂȘm os menores percentuais, com 7% cada, abaixo da mĂ©dia nacional.

— Quando olhamos para esses dados em conjunto, conseguimos entender que enfrentar a violĂȘncia de gĂȘnero exige mais do que responder Ă  agressĂŁo: exige polĂ­ticas capazes de olhar para as condiçÔes que permitem que essas mulheres reconstruam suas vidas â€” disse VitĂłria RĂ©gia da Silva, diretora executiva da GĂȘnero e NĂșmero.

Machismo e desrespeito

Outra vertente dos dados retrata a percepção das mulheres sobre machismo e desrespeito em diferentes ambientes: na rua, em casa, no trabalho. Para 70% das mulheres entrevistadas, o Brasil Ă© um paĂ­s muito machista. Nenhuma unidade da Federação tem Ă­ndices estatisticamente muito acima da mĂ©dia, mas alguns estados apresentam menores percentuais, como AmapĂĄ (59%), RondĂŽnia e Roraima (ambos com 61%).

Na mĂ©dia nacional, 46% das entrevistadas acreditam que as mulheres nĂŁo sĂŁo tratadas com respeito. Rio de Janeiro (55%) e Pernambuco (53%) apresentaram patamares superiores Ă  mĂ©dia nacional. Os estados com os menores Ă­ndices sĂŁo AmapĂĄ (34%) e Santa Catarina (35%).

A rua Ă© o ambiente apontado por quase metade das brasileiras (49%) como aquele onde as mulheres sĂŁo menos respeitadas. O percentual mais acima da mĂ©dia nacional estĂĄ no CearĂĄ (56%). RondĂŽnia, Acre e Rio Grande do Sul registraram os percentuais mais baixos, todos com 43%.

Mapa Nacional

O recorte estadual com dados de 2025 estĂĄ disponĂ­vel, na pĂĄgina “Pesquisa Nacional” do Mapa Nacional da ViolĂȘncia de GĂȘnero. O projeto Ă© resultado de uma parceria entre o Senado, o Instituto Natura e a GĂȘnero e NĂșmero. A plataforma reĂșne dados pĂșblicos e interativos sobre a violĂȘncia de gĂȘnero no Brasil.

—  O Mapa Nacional nĂŁo Ă© apenas mais um agregador de dados sobre o tema. Ao contrĂĄrio, Ă© talvez o principal instrumento pĂșblico, efetivo, capaz de expor, comparar, confrontar e mudar a realidade vivida, a cada 12 meses, pelas mulheres no Brasil â€” disse JosĂ© Henrique Varanda, coordenador do Instituto de Pesquisa DataSenado.

Criado em 2016 pelo Senado, o ObservatĂłrio da Mulher contra a ViolĂȘncia reĂșne, analisa e divulga dados sobre a violĂȘncia de gĂȘnero no Brasil. Em parceria com o Instituto DataSenado, produz e integra informaçÔes para subsidiar polĂ­ticas pĂșblicas e alimentar o intercĂąmbio entre as principais instituiçÔes envolvidas no enfrentamento Ă  violĂȘncia contra mulheres.

Por AgĂȘncia Senado

|đŸ“žÂ© Thingsifind Beautiful