|🌡️⛈️ Fenômeno El Niño volta ao radar e projeções indicam formação nos próximos meses

No dia último dia 18, a National Oceanic and Atmosphere Administration (NOAA), agência científica ligada ao governo americano que trata sobre meteorologia e ciência climática, publicou um relatório que indica um provável El Niño nos próximos meses, com 82% de chance de consolidação entre maio e julho de 2026.
Esse fenômeno climático é de variabilidade natural do sistema terrestre e corresponde à fase quente do chamado El Niño-Oscilação Sul (Enos), com El Niño associado ao aquecimento anômalo das águas superficiais do Pacífico Equatorial e a Oscilação Sul como componente atmosférica, marcada por variações de pressão entre os setores oeste e leste desse oceano. Sua fase oposta, a La Niña, se caracteriza pelo resfriamento dessas mesmas águas, em geral pelo fortalecimento dos ventos alísios e da circulação tropical.

Como se forma o fenômeno
Nádia Lima, professora do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, explica que, em momentos de neutralidade, quando não temos ocorrência de El Niño ou de La Niña, os ventos alísios sopram persistentemente de leste para oeste ao longo do Pacífico Tropical, empurrando águas superficiais mais aquecidas em direção ao Pacífico Oeste.
Como consequência, próximo à costa oeste da América do Sul, na região de Peru e Equador, ocorre a ascensão de águas mais frias e ricas em nutrientes, vindas das camadas mais profundas do oceano, processo conhecido como ressurgência. Essa distribuição térmica ajuda a organizar a circulação de Walker, um importante padrão de circulação atmosférica tropical, no qual o ar quente e úmido passa por um processo de ascensão sobre o Pacífico Oeste — o que favorece chuvas na região —, enquanto o ar mais seco tende a descer sobre o Pacífico Leste. Esse contraste de pressão atmosférica, tradicionalmente monitorado entre regiões como Darwin, na Austrália, e Taiti, na Polinésia Francesa, constitui um dos elementos centrais da Oscilação Sul.
O El Niño começa a se configurar quando, por diferentes mecanismos internos do sistema oceano-atmosfera, os ventos alísios passam a enfraquecer de forma significativa. Nesse cenário, a massa de água quente, que normalmente permanece acumulada no Pacífico Oeste, passa a se deslocar para o leste e para o centro do oceano. “Esse deslocamento provoca um aquecimento anômalo das águas superficiais no Pacífico Equatorial central e oriental, enquanto reduz a intensidade do processo de ressurgência das águas frias na costa da América do Sul. Esse aquecimento altera os gradientes de pressão atmosférica entre o Pacífico Oeste e Leste, enfraquece a Oscilação Sul e reorganiza toda a circulação tropical em larga escala”, detalhou Nádia.
Centros de referências de monitoramento climático, como o NOAA, identificam a ocorrência do El Niño quando a temperatura da superfície do mar numa região específica, conhecida como Niño 3.4, localizada no Pacífico Equatorial Central, apresenta anomalias iguais ou superiores a 0,5ºC por alguns meses consecutivos. Apesar da origem concentrada no Pacífico Tropical, o fenômeno acaba por modificar toda a circulação atmosférica planetária: ondas de calor, regimes de precipitação, secas, enchentes e outros eventos extremos podem ser intensificados ou alterados em várias partes do mundo, inclusive na América do Sul e no Brasil.
Efeitos no Brasil
Segundo a professora, os efeitos do El Niño no Brasil costumam ser expressivos. “É importante destacar que eles não se manifestam de forma homogênea em todo o território nacional. O Brasil possui dimensões continentais e isso traz uma diversidade climática ao longo do território, com influência simultânea de diferentes sistemas atmosféricos e oceanos. Por isso, o fenômeno não determina sozinho o comportamento e a variabilidade do clima no ano, isoladamente, mas modifica de forma importante a probabilidade de ocorrência de determinados padrões de temperatura, de precipitação e até de eventos extremos.”
Durante o El Niño, existe uma tendência de aumento das chuvas na região Sul, especialmente entre a primavera e o início do verão, destaca Nádia. “Isso ocorre justamente porque o fenômeno altera a circulação atmosférica, o que favorece uma atuação mais frequente de sistemas frontais.” Isso também propicia o maior transporte de umidade, com condições favoráveis para precipitações persistentes ou mais intensas, cenário que amplia o risco de inundações e de deslizamentos de terra, com impactos importantes sobre áreas urbanas, infraestruturas e atividades rurais.
No Norte e Nordeste do País o fenômeno costuma favorecer a redução das chuvas e a elevação das temperaturas, especialmente na Amazônia e no semiárido nordestino. Isso se dá porque o El Niño altera os padrões de convecção tropical e pode inibir a formação de nuvens profundas, justamente as associadas à precipitação. “Como consequência, podem ocorrer estiagens mais prolongadas, redução da sensibilidade hídrica, queda nos níveis de reservatórios, maior suscetibilidade a queimadas, entre outros efeitos que pressionam ecossistemas muitas vezes já vulneráveis”, explicou.
Já em outras regiões do País, como o Centro-Oeste e o Sudeste, os impactos tendem a ser mais variáveis, tendo relação com a intensidade do fenômeno, da época em que ocorre e da interação com outros moduladores climáticos, como a temperatura da superfície do Oceano Atlântico, a atuação da zona de convergência do Atlântico Sul e a passagem de sistemas frontais.
Essa variabilidade regional não fica restrita ao comportamento da atmosfera, ela se reflete diretamente em setores estratégicos do País, como setor energético e a agropecuária. Segundo Nádia, a agricultura brasileira não responde apenas ao volume total de chuvas, mas também está ligada à distribuição dessas chuvas ao longo do ciclo produtivo, das condições térmicas, da disponibilidade hídrica em fases críticas, do desenvolvimento das culturas, entre outros fatores.
Nas regiões onde o El Niño favorece o excesso de precipitação pode ocorrer encharcamento dos solos, uma dificuldade no preparo do terreno, atraso no plantio ou na colheita, maior favorecimento de doenças nas lavouras associado ao excesso de umidade e, consequentemente, perdas logísticas importantes. Em áreas onde predominam estiagens prolongadas e temperaturas elevadas, culturas como soja, milho, feijão, café e até mesmo área de pastagens podem apresentar uma redução de produtividade, com estresse hídrico e uma maior demanda por irrigação, explicou a professora.
“Acompanhar a evolução do El Niño vai muito além do interesse meteorológico, porque seus efeitos acabam por repercutir diretamente nos setores estratégicos e na sociedade” (Nádia Lima)
Com o avanço da tecnologia, aumentamos a capacidade de prever os fenômenos climáticos e seus apogeus, explica Tercio Ambrizzi, professor do Departamento de Ciências Atmosféricas do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP. “Em termos de agricultura, perdia-se muito, porque não tínhamos esse conhecimento tão grande. Hoje, quando já temos uma perspectiva de que haverá um El Niño, mesmo que não saibamos a intensidade, o conhecimento de sua região já permite se preparar para os efeitos do fenômeno.”
Segundo o professor, essa perspectiva ajuda a escolher o momento do plantio, da colheita e até mesmo o que plantar, com a opção de uma cultura mais adaptada àquele evento climático. “Isso também vale para áreas que sabemos que podem ser inundadas por chuvas. A Defesa Civil tem que estar preparada. Em áreas de risco, se existe probabilidade de chuvas intensas, moram pessoas naquela região? Onde podemos abrigar essas pessoas, se tiver uma eventual necessidade de deslocamento? Retirar essas pessoas antes de deslizamentos significa evitar mortes, precisamos dessa previsibilidade”, enfatizou.
“Super” El Niño
A intensidade do El Niño está relacionada à intensidade do aquecimento das águas superficiais do Pacífico Equatorial, sobretudo ao tempo que esse aquecimento se mantém. Um aumento pontual de temperatura para caracterizar o fenômeno e definir sua intensidade não basta: “Esse sinal precisa persistir por alguns meses e se manter acima do padrão climatológico”, explicou a professora Nádia.
O El Niño não é um processo controlado apenas pelo oceano, mas é um sistema acoplado entre oceano e atmosfera. Esse acoplamento pode levar a um mecanismo de reforço, quando mudanças nos ventos influenciam o oceano e o oceano, por sua vez, retroalimenta as mudanças atmosféricas. Esse processo integrado permite a intensificação do fenômeno ao longo dos meses.
Nos canais de notícia, frequentemente são usados termos como “Super” El Niño, para definir uma grande força do fenômeno climático. Para Ambrizzi, o uso desses rótulos não acrescenta informações e pode levar à desinformação. “Alguns anos atrás, um El Niño começou a se aquecer rapidamente no início do ano, e a mídia apelidou de El Niño ‘Godzilla’. São coisas recorrentes, mas que não são ideais”, destacou.
A ciência classifica a intensidade a partir de limiares de aquecimento: o Índice Oceânico Niño (ONI) mede o desvio da anomalia, ou seja, o porcentual de aquecimento anormal do oceano na região Niño 3.4 em relação à temperatura usual das águas superficiais. Acima de 0,5ºC, seria um nível fraco; entre 1ºC e 1,5ºC, um nível moderado; entre 1,5ºC e 2ºC, um nível forte, e, acima disso, uma intensidade muito forte. “As projeções para o próximo El Niño estariam indicando uma tendência a um alinhamento moderado. Mais simulações numéricas vão ocorrer entre junho e julho, então teremos uma ideia muito clara da intensidade desse alinhamento”, explicou o professor.
As informações são de Por Davi Milani, com Paulo Capuzzo e Cinderela Caldeira, do Jornal da USP
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