Uma investigação revelou que o mercado de implantes hormonais no Brasil continua ativo e lucrativo, mesmo após restrições impostas por órgãos reguladores. A prática, considerada irregular por entidades médicas, se sustenta em brechas na legislação e levanta preocupações sobre segurança, ética e informação ao paciente.

Esses implantes, conhecidos tecnicamente como “pellets hormonais”, são pequenos dispositivos inseridos sob a pele para liberar substâncias ao longo do tempo. Embora possam ter indicações médicas específicas, o uso com fins estéticos ou anabolizantes — como ganho de massa muscular ou melhora de desempenho — é proibido no país.

Ainda assim, médicos seguem oferecendo o procedimento ao público, muitas vezes apresentando-o como solução para sintomas como baixa libido, menopausa, cansaço, ganho de peso e até questões emocionais. O problema é que, segundo especialistas, não há evidência científica robusta que comprove a eficácia e a segurança desses implantes para essas finalidades.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária chegou a proibir totalmente a manipulação e o uso desses implantes em 2024, mas recuou semanas depois. A nova regra manteve a proibição para fins estéticos e anabolizantes, porém permitiu o uso em condições terapêuticas específicas. Essa mudança abriu espaço para que o mercado se reorganizasse.

Na prática, clínicas passaram a adaptar o discurso, oferecendo os implantes como tratamento médico — mesmo sem respaldo científico sólido para muitas dessas indicações. Esse movimento é alvo de críticas do Conselho Federal de Medicina, que considera a prática uma possível infração ética.

Outro ponto que chama atenção é o modelo de negócio. Documentos e relatos indicam que alguns profissionais atuam em várias frentes: prescrevem os implantes, vendem cursos para outros médicos aprenderem a aplicar o método e mantêm ligação com farmácias de manipulação que produzem os produtos.

Essa estrutura levanta suspeitas de conflito de interesse, já que o mesmo profissional pode lucrar em todas as etapas — da prescrição à venda. Segundo o CFM, esse tipo de prática precisa ser investigado e pode ferir o código de ética médica.

Além disso, há indícios de produção em larga escala por farmácias de manipulação, o que também é irregular. Pela legislação, esses estabelecimentos devem produzir medicamentos de forma individualizada, com base em prescrição específica para cada paciente.

Os riscos à saúde são outro ponto crítico. Pacientes relatam efeitos colaterais importantes após o uso dos implantes, incluindo acne severa, alterações na voz, ganho de peso e até complicações mais graves, como problemas cardíacos, hepáticos e renais.

Em alguns casos, mulheres afirmam que não foram informadas de que estavam recebendo substâncias com efeito anabolizante. Outras relatam falta de acompanhamento médico após o procedimento, o que agrava ainda mais a situação.

As redes sociais têm papel central na expansão desse mercado. Médicos utilizam plataformas digitais para divulgar tratamentos, muitas vezes com promessas de melhora na qualidade de vida, autoestima e desempenho físico. Mulheres aparecem como principal público-alvo, especialmente em conteúdos que associam questões hormonais a bem-estar, sexualidade e aparência.

Especialistas alertam que esse tipo de abordagem pode explorar inseguranças e induzir decisões sem base científica sólida. A recomendação é que pacientes busquem sempre orientação com profissionais qualificados, desconfiem de promessas rápidas e verifiquem se o tratamento tem respaldo de entidades médicas reconhecidas.

O caso segue sendo acompanhado por órgãos como o Ministério Público e pela própria Anvisa, enquanto o debate sobre regulação, ética médica e segurança do paciente ganha cada vez mais espaço.

Crédito: G1
Adaptação: Redação Rádio Centro