|🍼🥛 Estudo revela presença de toxinas de fungos em produtos destinados à alimentação infantil

Fórmulas infantis, leites em pó e outros alimentos à base de leite podem carregar substâncias produzidas por fungos imperceptíveis ao consumidor. Uma pesquisa da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP identificou pelo menos uma micotoxina em 98 das 190 amostras de alimentos para crianças analisadas, o equivalente a 51,6% do total.
Publicado na revista Dairy, o estudo faz parte da pesquisa de doutorado de Sana Ullah, realizada na FZEA, que teve como objetivo verificar a ocorrência de diferentes micotoxinas em alimentos destinados a crianças e estimar os possíveis riscos associados à exposição.
Inimigo invisível
As micotoxinas são substâncias tóxicas produzidas por determinados fungos, dos gêneros Aspergillus, Fusarium e Penicillium. Esses organismos podem contaminar alimentos durante o cultivo, a colheita, o armazenamento ou o processamento. Segundo Carlos Oliveira, professor da FZEA e orientador da pesquisa, os fungos encontram condições favoráveis ao seu desenvolvimento principalmente em ambientes sombreados e com umidade. “Micotoxinas são produzidas por certos tipos de mofos que crescem nos alimentos”, explica.
Mais de 300 micotoxinas já foram identificadas e descritas na literatura. No estudo, os pesquisadores investigaram seis grupos: aflatoxinas (AFs), fumonisinas (FBs), ocratoxina A (OTA), zearalenona (ZEN), deoxinivalenol (DON) e toxina T-2. “Essas substâncias são muito tóxicas, portanto, são regulamentadas porque apresentam efeitos carcinogênicos e outros agravos que afetam bastante a saúde”, relata Oliveira.

As aflatoxinas são micotoxinas carcinogênicas. “É o composto natural mais potente capaz de causar câncer hepático que existe no nosso planeta. Não existe nada mais potente do que isso”, afirma. Ocratoxina A também é carcinogênica e imunossupressora (reduz a atividade do sistema imunológico). Já a zearalenona tem atividade estrogênica, ou seja, mimetiza a ação do hormônio sexual feminino, o estrogênio. As fumonisinas estão associadas a efeitos tóxicos, enquanto o deoxinivalenol pode causar danos às células e afetar o sistema imunológico.
Para o estudo, 190 amostras foram coletadas em supermercados e farmácias de Pirassununga e Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, entre maio de 2023 e maio de 2025. Todos os produtos eram fabricados no Brasil. Os pesquisadores separaram os produtos em sete categorias: fórmulas para bebês de até 6 meses; até 12 meses; até 3 anos; fórmula infantil para crianças acima de 3 anos; leites em pó com e sem sabor e produtos à base de leite.
Oliveira destaca que não é possível observar as micotoxinas a olho nu pois elas não alteram aspectos visuais nos alimentos. São inodoras, insípidas e incolores, e identificadas apenas com técnicas analíticas. “A análise foi feita através de cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massas, uma técnica para analisar vários componentes tóxicos em uma mesma amostra”, explica.
Produtos contaminados
Das 190 amostras analisadas, 98 apresentaram pelo menos uma micotoxina. Em 32 delas (16,8% do total), foram identificadas de duas a quatro micotoxinas diferentes.
A zearalenona foi a substância mais frequente: apareceu em 60 amostras, o equivalente a 32% do total. As fumonisinas FB1 e FB2 foram encontradas em 42 amostras (22%), enquanto a OTA foi identificada em 11 (5,8%), o DON em oito (4,2%) e a toxina T-2 e as aflatoxinas apareceram em duas amostras cada (1,1%).

No Brasil, há uma legislação para todas as toxinas analisadas na pesquisa, que é conciliada com outros países. “A única exceção é que nós descobrimos uma toxina chamada T-2, que foi encontrada só em poucas amostras, mas que acendeu um alerta interessante porque ela não é regulamentada no Brasil”, aponta Oliveira. A T-2 possui um limite na Europa, mas no Brasil não. “É possível que no futuro tenha que estabelecer alguns estudos para verificar se é o caso mesmo ou não de estabelecer uma legislação para essa toxina no nosso país.”
A maior parte das concentrações de micotoxinas encontradas estava abaixo dos limites máximos de tolerância, estabelecidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pela legislação europeia, aplicável às substâncias analisadas. Porém, “das 190 amostras, 11 ultrapassaram o limite máximo estabelecido pela União Europeia, enquanto três ultrapassaram o limite máximo estabelecido pela Anvisa”, relata Sana Ullah.
O estudo não indica que todos os produtos com micotoxinas apresentem risco à saúde. “Algumas amostras continham níveis maiores, o que pode significar um risco para crianças, que são os principais consumidores desses produtos que nós analisamos”, destaca Oliveira. A avaliação depende da quantidade da substância, do alimento consumido e da exposição da criança.
Segundo Oliveira, uma grande preocupação foi a ocorrência de OTA, presente em algumas amostras e em grandes quantidades. “Ela é uma toxina carcinogênica e perigosa do ponto de vista de saúde. O que indica que é necessário ter um controle maior dessas toxinas, principalmente em ingredientes de origem vegetal que são usados na composição desses produtos”, aponta.
Risco para a saúde
Segundo Sana, os bebês são mais vulneráveis às micotoxinas por terem menor peso corporal, menor capacidade de desintoxicação e taxas metabólicas mais altas. “Eles consomem uma quantidade maior de alimento em relação ao próprio peso corporal, o que representa uma preocupação para a saúde”, destaca a pesquisadora. Os efeitos também variam de acordo com a micotoxina.

A presença simultânea de diferentes micotoxinas é outro ponto que ainda exige investigação. Essas substâncias podem interagir entre si, mas os pesquisadores ressaltam que ainda não há conhecimento suficiente para avaliar com precisão os efeitos dessas combinações sobre a saúde.
“Apesar de termos constatado a ocorrência de micotoxinas, claro que há uma amostragem limitada aqui nas condições do Estado de São Paulo”, diz Sana, ao enfatizar a importância de estudos futuros que analisem alimentos destinados a crianças à base de leite, para direcionar ações de regulamentação mais forte, controle das indústrias, controle das matérias-primas e ações de fiscalização.
Regulamentação em todas as etapas
A prevenção da contaminação por micotoxinas não depende de uma única etapa da produção. Segundo Carlos Oliveira, no caso do leite, as substâncias também podem chegar ao produto a partir da alimentação dos animais. Uma plantação de milho contaminada por fungos do gênero Fusarium, por exemplo, pode levar micotoxinas para a cadeia produtiva, desde a colheita até o processamento dos ingredientes usados nas fórmulas infantis.

Por isso, os pesquisadores defendem medidas de controle desde a produção agrícola até a fabricação dos alimentos. Boas práticas agrícolas podem reduzir a contaminação no campo, durante a colheita e o armazenamento. Já as boas práticas de fabricação estabelecem cuidados para as etapas de processamento industrial.
“A prevenção é melhor do que a cura”, ressalta Sana. “Uma vez que a contaminação por micotoxinas ocorre, é muito difícil eliminá-las completamente”, reforça Oliveira. Ele explica que a dificuldade está também na resistência dessas substâncias ao calor.
Mesmo que o processamento elimine os fungos que as produzem, as toxinas podem permanecer no alimento. “O desafio é encontrar métodos que reduzam a contaminação sem comprometer o valor nutricional dos produtos e sem elevar excessivamente seus custos”, afirma.
Para Sana Ullah, ampliar a quantidade de dados sobre a ocorrência das micotoxinas no Brasil é outro passo necessário. Com informações de diferentes regiões, será possível compreender melhor os padrões de contaminação e subsidiar o trabalho dos órgãos de vigilância sanitária.
O artigo Occurrence and Risk Characterization of Mycotoxins in Milk-Based Infant Foods Commercially Traded in São Paulo, Brazil está disponível on-line.
As informações são de Amanda Yoshizaki e Fabiana Mariz, do Jornal da USP
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