Enquanto África faz história dentro de campo, racismo contra delegações mostra conexões entre política e futebol 📸© Rafael Ribeiro/CBF via Fotos Públicas

Pela primeira vez, o continente africano está representado com 10 seleções na Copa do Mundo. Apesar de pouco conhecido e divulgado, o futebol é forte na África. A partida entre Brasil e Marrocos deu o tom desse cenário, já que a seleção brasileira encontrou dificuldades e conseguiu apenas o empate por 1 x 1. Nesta segunda-feira (15), foi a vez de Cabo Verde dar muito trabalho a uma das seleções favoritas do mundo, a Espanha, em jogo que ficou no 0 x 0, com atuação histórica do goleiro Vozinha.

Mesmo antes de chegar dentro das quatro linhas, o continente africano também tem ocupado o noticiário, já que houve casos de racismo na chegada de algumas delegações aos Estados Unidos e um episódio emblemático da deportação do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, por autoridades da imigração do governo de Donald Trump.

Ao BdF Entrevista, o jornalista Luis Fernando Filho, criador do Ponta de Lança, classifica o caso como racismo evidente. Ele defende que política e futebol são indissociáveis em algumas questões, e essa é uma delas.

_____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

|👉 LEIA TAMBÉM:

__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

“A gente está falando de um cara que ficou de 11 a 15 horas sendo interrogado pelo governo dos Estados Unidos simplesmente porque ele é da Somália, um país que tem tensões com os Estados Unidos por causa do grupo terrorista Al-Shabaab, que domina o país, e, infelizmente, dá muita dor de cabeça para o governo somali. Omar foi interrogado com uma incriminação dos órgãos interrogatórios, dizendo que ele tinha ligação com membros terroristas do grupo Al-Shabaab, o que não foi comprovado em nenhum momento. Então, a gente está falando de uma acusação muito grave contra um árbitro do futebol, que basicamente está dentro daquele estereótipo que países do Ocidente colocam sobre vários países africanos, especialmente que eles detectam como inimigo”, pondera.

“O próprio Donald Trump falou, há um tempo atrás, que a Somália é um país de quarto mundo”, lembra. “O caso do Omar é bem sintomático dessa relação e desse estereótipo de algumas regiões do continente africano, do continente asiático, do Oriente Médio, que são ditos inimigos diplomáticos dos Estados Unidos, e, de uma forma ou outra, pessoas que não têm nada a ver com nada disso estão sofrendo.”

Filho destaca que alguns países africanos vivem, neste momento, cenários de guerra civil e conflitos internos bastante perturbadores e que é possível que isso apareça de alguma forma em manifestações durante os jogos. Um dos exemplos é o Congo. “A gente está falando da República Democrática do Congo tendo um dos solos mais ricos do mundo e historicamente sendo explorado pelo Ocidente. E quando eu falo Ocidente, é muito interessante, porque a gente está falando de muitas guerras e conflitos civis que acontecem no continente africano, mas que têm o apoio do Ocidente. A gente está vendo um conflito no Sudão, que até agora está acontecendo, e com um apoio maciço de países fora da África, apoiando ou o grupo paramilitar ou o Exército militar do Sudão. E no Congo não é diferente; lá tem muito recurso mineral, o mundo está olhando para aquilo. A mão invisível do Ocidente está sempre presente no continente africano”, relata.

Luis Fernando Filho defende que a Copa é uma ótima oportunidade para que os brasileiros passem a descolonizar um pouco o imaginário futebolístico, hiperfocado nos campeonatos europeus. “No Brasil, a gente consome muito essa cultura, ou estadunidense ou europeia”, diz. “A África do Sul, que já estreou contra o México, tem quase 100% do elenco feito na África do Sul. A maioria dos jogadores ou é do Mamelodi Sundowns — que é o atual campeão africano, que jogou contra o Fluminense no Super Mundial de Clubes e está confirmado no Mundial de Clubes no final do ano já — e do Orlando Pirates, que acabou de ser campeão sul-africano também. É basicamente a base da África do Sul que está na Copa do Mundo em 2026. Ao contrário de outras seleções, em que grande parte está jogando já na Europa, a África do Sul é uma seleção extremamente doméstica. E se você acompanha pelo menos um jogo, você percebe que tem muito talento”, destaca.

As informações são de Igor Carvalho e Maria Teresa Cruz, do Brasil de Fato

|📸© FIFA via Fotos Públicas