Uma senhora aparentemente comum, falando de política com jeito popular, frases fortes e vídeos emocionados. Um feirante simples comentando decisões do governo como se estivesse conversando diretamente com o povo. À primeira vista, parecem apenas personagens carismáticos das redes sociais. Mas existe um detalhe importante: eles não existem.

📸 Imagem gerada por inteligência artificial

Uma investigação do Observatório das Eleições revelou que o Brasil já possui pelo menos 18 influenciadores políticos totalmente criados por inteligência artificial circulando nas redes sociais — e a maioria deles sequer avisa ao público que é artificial.

O dado acendeu um alerta entre especialistas em tecnologia, democracia e combate à desinformação.

Segundo o levantamento, feito pelas organizações Data Privacy Brasil e Aláfia Lab, cerca de 61% dos perfis analisados não tinham qualquer aviso claro informando que os vídeos, vozes e personagens eram gerados por IA.

Na prática, milhões de pessoas podem estar consumindo opiniões políticas fabricadas digitalmente sem perceber.

Os pesquisadores apontam que esse fenômeno representa uma mudança perigosa no ambiente das redes sociais. Antes, a preocupação principal estava nas fake news tradicionais. Agora, o desafio é ainda maior: personagens inteiros estão sendo criados artificialmente para parecer humanos reais e influenciar emoções, opiniões e debates públicos.

O caso mais famoso é o da “Dona Maria”, personagem virtual que viralizou nas redes entre 2025 e 2026. Retratada como uma senhora negra e humilde, ela publica vídeos criticando políticos e temas ligados ao governo federal. O perfil acumulou centenas de vídeos e ganhou enorme alcance principalmente no TikTok e Instagram.

Do outro lado político, surgiu também o “Seu Zé da Feira”, outro personagem criado artificialmente, mas usado para defender pautas alinhadas à esquerda e atacar políticos conservadores.

O mais preocupante para os pesquisadores é que esses avatares conseguem transmitir uma falsa sensação de autenticidade. Eles falam como pessoas comuns, usam linguagem emocional, simulam sotaques regionais, expressões populares e até erros naturais da fala humana.

Isso cria uma conexão emocional poderosa com quem assiste.

Especialistas em comportamento digital alertam que o cérebro humano tende a confiar mais em rostos e vozes que parecem familiares ou populares. Quando um avatar artificial imita perfeitamente um cidadão comum, muitas pessoas baixam a guarda sem perceber que estão diante de um conteúdo fabricado.

E o problema vai muito além da política.

Pesquisadores internacionais vêm alertando que tecnologias de IA generativa podem ser usadas para manipular debates públicos, criar campanhas de desinformação em massa, espalhar discursos radicais e até simular apoio popular falso para determinadas ideias.

Em vários países, autoridades eleitorais já demonstram preocupação com o impacto dessas ferramentas nas democracias.

O Tribunal Superior Eleitoral brasileiro já possui regras exigindo que conteúdos produzidos com inteligência artificial tragam avisos claros ao público. O problema é que muitos perfis ignoram essa obrigação ou escondem os avisos em detalhes difíceis de perceber.

Segundo o estudo, em vários casos a origem artificial só foi descoberta após análises técnicas minuciosas, observando falhas sutis em movimentos faciais, sincronização labial, resolução de imagem e padrões robóticos de áudio.

Outro ponto preocupante é a velocidade com que essas tecnologias evoluem.

Ferramentas modernas conseguem criar vídeos hiper-realistas em poucos minutos. Hoje já é possível gerar rostos, vozes, entrevistas falsas e até discursos completos quase indistinguíveis da realidade.

Especialistas afirmam que o maior risco não é apenas acreditar em uma mentira específica, mas perder a capacidade de distinguir o que é real do que é artificial.

Esse fenôeno já ganhou até um nome em estudos internacionais: “infocalipse”, uma espécie de colapso da confiança pública causado pelo excesso de conteúdos manipulados digitalmente.

A preocupação cresce especialmente entre jovens, que passam horas consumindo vídeos curtos em plataformas como TikTok, Instagram Reels e Kwai — justamente onde esses personagens artificiais mais circulam.

Além disso, algoritmos das redes sociais tendem a impulsionar conteúdos emocionalmente fortes, polêmicos ou revoltantes. E os avatares políticos criados por IA são produzidos exatamente para gerar reação imediata.

O resultado é um ambiente digital cada vez mais difícil de separar realidade, manipulação e propaganda.

Pesquisadores defendem que alfabetização digital e transparência serão fundamentais nos próximos anos. Saber identificar sinais de manipulação, verificar fontes e desconfiar de conteúdos extremamente apelativos pode se tornar tão importante quanto aprender a diferenciar notícias verdadeiras de fake news tradicionais.

Porque agora o desafio não é apenas descobrir se uma informação é falsa.

É descobrir se a própria pessoa falando realmente existe.

Crédito: g1, levantamento do Observatório das Eleições, Data Privacy Brasil, Aláfia Lab, estudos sobre desinformação digital e inteligência artificial generativa.

Adaptação e redação: Portal e Rádio Centro.