🏍️💸 Mais brasileiros viram motoboys para sobreviver — mas pagam alto preço por renda rápida
O barulho das motos já virou parte da rotina das cidades brasileiras. Em poucos minutos, entregadores cruzam avenidas levando refeições, remédios, compras de mercado e até documentos urgentes. O que antes parecia apenas uma comodidade dos aplicativos acabou se transformando em uma das engrenagens mais importantes da economia urbana no Brasil.

📸 Imagem gerada por inteligência artificial.
Por trás dessa correria existe uma realidade que cresce ano após ano: cada vez mais brasileiros estão entrando no trabalho por aplicativo como motoboys, mesmo enfrentando renda instável, jornadas exaustivas e riscos diários de acidentes.
A explicação passa por um cenário que mistura desemprego, dificuldade financeira e necessidade urgente de ganhar dinheiro rapidamente.
Para muita gente, virar entregador é hoje uma das formas mais rápidas de começar a trabalhar. Diferente de empregos tradicionais, o setor exige pouca burocracia. Em muitos casos, basta ter um celular, uma moto e cadastro aprovado em algum aplicativo. Não há longos processos seletivos, exigência de diploma ou meses esperando contratação.
Esse fenômeno ajudou a impulsionar o mercado de motocicletas no país. Dados da Abraciclo mostram que o Brasil fechou 2025 com mais de 2,1 milhões de motos vendidas, um recorde histórico. A alta foi fortemente puxada justamente pelo crescimento do delivery e dos aplicativos de entrega. E a tendência continua acelerando: a previsão é que 2026 registre números ainda maiores.
Ao mesmo tempo, explodiu o mercado de aluguel de motos. Muitas empresas passaram a oferecer motocicletas prontas para trabalho, com pagamento semanal e pouca exigência de crédito. Para milhares de trabalhadores endividados ou desempregados, isso virou um “atalho” para começar a ganhar dinheiro quase imediatamente.
A moto passou a representar muito mais do que transporte. Em muitos casos, ela virou ferramenta de sobrevivência.
Mas junto com essa facilidade veio também um modelo de trabalho extremamente desgastante.
Diferente de um emprego formal, o entregador não tem salário garantido no fim do mês. O rendimento depende da quantidade de corridas feitas, das horas conectado ao aplicativo e até da demanda do dia. Se chove demais, o movimento muda. Se o aplicativo reduz taxas, o ganho diminui. Se a moto quebra, a renda praticamente desaparece.
E quase todos os custos ficam nas mãos do trabalhador.
Combustível, manutenção, troca de pneus, óleo, documentação, seguro e até o aluguel da moto saem do bolso do entregador. Quanto mais ele roda para tentar aumentar os ganhos, maior é o desgaste do veículo e maior também a exposição ao trânsito.
Pesquisas recentes mostram que o crescimento do setor não veio acompanhado de melhora proporcional na renda.
Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apontou queda no rendimento médio dos entregadores nos últimos anos. Em muitos casos, trabalhadores passaram a ganhar menos mesmo trabalhando mais horas por dia.
Outro levantamento revelou que grande parte dos motoboys atua acima de 10 horas diárias e muitos trabalham todos os dias da semana sem folga. A lógica acaba sendo cruel: para tentar ganhar mais, o trabalhador precisa permanecer mais tempo conectado aos aplicativos e aceitar um volume maior de entregas.
Isso aumenta drasticamente os riscos.
Uma pesquisa da Ação da Cidadania mostrou que mais de 40% dos entregadores por aplicativo já sofreram acidentes enquanto trabalhavam. Especialistas em trânsito alertam que motociclistas estão entre as maiores vítimas fatais das ruas brasileiras.
Segundo a Associação Brasileira de Medicina de Tráfego, motociclistas têm até 17 vezes mais risco de morrer em acidentes do que ocupantes de carros. Hoje, as motos já aparecem envolvidas em mais de 60% das mortes no trânsito no país.
Além do impacto humano, os acidentes também geram um enorme custo para a saúde pública. Somente em 2024, as internações de motociclistas custaram mais de R$ 257 milhões ao Sistema Único de Saúde (SUS).
A maioria das vítimas é formada justamente por jovens entre 20 e 39 anos — faixa etária que domina o setor de entregas.
Mesmo diante dos riscos, muitos continuam enxergando o delivery como única alternativa possível. Em um Brasil ainda marcado pela informalidade, pelo desemprego e pela dificuldade de recolocação profissional, os aplicativos acabaram funcionando como uma espécie de “renda de emergência permanente”.
Para milhares de famílias, desligar o aplicativo simplesmente não é uma opção.
E talvez seja justamente aí que esteja a maior contradição dessa nova realidade brasileira: enquanto os aplicativos prometem rapidez e praticidade para os consumidores, muitos trabalhadores seguem enfrentando jornadas cada vez mais pesadas para conseguir manter o básico dentro de casa.
Créditos: g1, dados da Abraciclo, Ipea, Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, Associação Brasileira de Medicina de Tráfego e Ação da Cidadania.
Adaptação e redação: Portal e Rádio Centro.

